sua vida é da minha conta, sim
mas eu também um dia acreditei que minha vida não era da conta de ninguém
uma vez eu ouvi que é preciso uma vila inteira para criar uma criança. então será que essa nossa mania de individualidade tem nos tirado a capacidade de criar seres humanos mais… humanos?
digo nossa, porque mesmo ainda sem ter filhos gestados por mim, não acredito que a responsabilidade da criação de uma criança esteja exclusivamente nas mãos de quem a cria.
eu fui criada por pais, avós, tios, professores, Castelo Rá Tim Bum, Chiquititas, Mamonas Assassinas, Ruth Rocha, DiskMTV, banheira do Gugu e sistema Anglo de ensino. bata tudo no liquidificador, decore com as princesas da Disney et voilà… temos uma Ynara.
quem eu me tornei não é só fruto da educação e do afeto que recebi dentro de casa. mas também de tudo o que me atravessou quando coloquei o pé pra fora. as inseguranças que eu vivi (e vivo) enquanto menina e mulher são de responsabilidade social.
passaram por mim pessoas boas e ruins. gente que me ensinou a sentir ódio, nojo, raiva e desespero e outra gente que reforçou o que eu, felizmente, aprendi em casa: amar e ser amada, ouvir e ser ouvida.
por isso que, sim, eu acredito que é preciso uma vila inteira para criar uma criança. mas não só: é também preciso muitas mãos para criar um modo de vida mais humano.
uma amiga me mostrou que hotéis estão apostando em uma nova tendência: sleepcation - umas férias para você dormir. eles te oferecem bons travesseiros, colchões, cobertas e você paga para passar um dia inteiro comendo e dormindo. minha reação foi: “a gente está exausta, né? a gente, humanidade…”
pra mim, essa exaustão vem de uma cultura que nos faz acreditar que estamos sozinhas para dar conta de tudo o que chamamos de vida. eu mesma já caí nessa falácia! jurava que tudo o que eu quisesse ver acontecer dependia única e exclusivamente do quanto as minhas mãos são capazes de produzir.
mas olha só que coisa: quinta-feira a Desejante nasceu oficialmente como empresa para o mundo e eu jamais daria conta de pari-la sozinha. eu e Lavínia idealizamos juntas, a Juliana D'Andrea (JUPITER) desenhou a carinha dela, a Patty Engler está cuidando das alunas da comunidade, a Ananda Sueyoshi ouve e dá pitacos em tudo desde os primórdios e as mulheres que estão comigo desde que tudo era mato colocaram um tijolo cada uma nessa estrutura.
para que você existisse, foram necessários uma mãe, um pai, quatro avós, oito bisavós, dezesseis tataravós e vou parar por aqui porque você entendeu o recado e eu não sou de exatas.
mas teve um lugar que me fez ver com esses olhos que a terra não há de comer porque não serei enterrada, o que faz uma vila funcionar de verdade.
uma mulher decide abrir um restaurante para servir almoço aos viajantes que passam por sua comunidade. ela tem três filhas e coloca a mais velha para trabalhar com ela. aos poucos, com o aumento do movimento, ela decide construir alguns quartos e transformar o restaurante em uma pequena pousada.
vendo que o movimento da região está crescendo, ela incentiva sua irmã que é muito boa em fazer massagem e tem quatro filhos para sustentar sozinha a oferecer esse serviço para os turistas.
surge uma cooperativa para ensinar as mulheres da comunidade a produzir cosméticos. ela não pensa duas vezes para convencer a cunhada de fazer os cursos e abrir sua própria loja.
essa mulher não é uma invenção da minha cabeça. Nilde hoje é dona da Cabloclo’s House, a pousada que está entre os 1% das melhores hospedagens do mundo segundo o TripAdvisor. sua filha, Ary se formou em Gestão em Turismo e hoje atua como gerente logística da pousada. sua irmã, Gisele, segue fazendo a melhor massagem que eu já recebi, além de nos ensinar a medicina das plantas. sua cunhada, Sueula, é dona da Cheiros da Floresta que só expande, a cada ano que passa.
e todas elas foram incentivadas também pela Marina que trouxe um olhar de fora com generosidade e respeito e ajudou a ampliar toda força que já existia ali. mas ali onde?
ali, no Vale do Acajatuba, a 2h de Manaus e bem no meio da Floresta Amazônia. ali onde só se chega de barco e acompanhada de quem conhece cada curva do rio como a palma da mão.
ali, quem ocupa os lugares de liderança são as mulheres. e é aí que você vê como é possível operar por uma lógica mais justa de poder onde todas crescem juntas individualmente, mas através da força do coletivo.
conhecê-las mudou a minha vida para sempre. foi também por causa delas que a Desejante nasceu como ecossistema criativo. foi por estar ali, vivenciando e aprendendo com essas mulheres que eu reconheci a força que eu tinha para levantar a minha vila.
semana passada, no Vida Desejante, eu conversei com a Ary, filha da Nilde, e com a Letícia, parceira de trabalho da Marina. A Ary nos contou sua história e pudemos conversar sobre como a liderança feminina é um caminho possível.
pega um café, coloca o fone de ouvido, senta confortavelmente e vem entrar nessa roda com a gente:
ps: capa e títulos escolhidos estrategicamente para que o youtube entregue o vídeo a mais pessoas. ai ai, vocês sabem como é, né?
bora conhecer de perto essas mulheres comigo? de 04 a 07 de Junho vai acontecer a Amazen Liderança Feminina e estaremos imersas na realidade dessas divas que nos ensinam lindamente que a vida com generosidade é muito melhor vivida. eu também estarei ali trazendo práticas desejantes para te ajudar a integrar tudo o que vamos viver.
vou deixar aqui embaixo o site para você conhecer todos os detalhes e garantir a sua vaga (lembrando que são limitadas!). se você sempre sonhou em conhecer a Amazônia, considere ser conduzida por quem a tem como casa e vai te guiar com segurança, cuidado e sabedoria (ah, e está tudo incluso no pacote: transfer, hospedagem, refeições, passeios e práticas).
vamos? chegou a hora.
curadoria da semana
🎧eu encontrei essa maluca no tiktok e fiquei obcecada pela maneira estranha que ela faz música
🎬a Nilde participou do TedX Manaus! vem conhecer a diva!
📚semana passada saiu mais um texto meu na Comadreria e eu afirmo sem medo que é um dos mais bonitos que já escrevi




