o pavor de ter tudo no lugar
o desespero de quem não sabe viver sem apagar incêndios
hoje é sexta-feira, 15h e tudo está feito. no trabalho, conteúdos programados, mensagens respondidas e pendências resolvidas. na vida, tudo em paz. eu e Lucas sairemos daqui a pouco para tomar um café com uma amiga, já fiz meu treino do dia, tomei meu banho e até perfume passei.
tudo está no lugar. e eu estou apavorada.
desde que minha vida passou a ser gerenciada por mim, eu vivo correndo e preenchendo meu tempo com afazeres muitas vezes inúteis para não ter que lidar com a paz de ter tempo.
fui uma adolescente que amava ficar sozinha em casa depois da escola para criar histórias e vivê-las na minha imaginação. uma atriz sem plateia em ação todas as tardes. quer dizer, quase todas porque tinha o circo, o inglês e a academia. vez ou outra, o plantão de dúvidas de exatas que eu insistia em frequentar para continuar não entendendo nada. impressionante como os números e sua lógica não conversam comigo…
eu amo a preguiça. amo quando os dias chuvosos convidam a gente pro café na cama e maratona de série. amo tirar um cochilo depois do almoço ou na cadeira de praia na beira do mar.
mas eu sinto uma culpa enorme em viver esse amor…
eu também amo o ócio. não ter absolutamente nada pra fazer me dá uma sensação deliciosa de ser uma pessoa livre. mas logo em seguida, me vem o desespero de quem não sabe lidar com a liberdade.
pausa também é movimento.
a frase que norteia meu trabalho nasceu para me trazer pra presença. aliás, tudo o que eu faço e crio foi (e é) antídoto que eu mesma precisei (e preciso).
voltar pro corpo, ouvi-lo, dar a ele o que ele precisa. botar atenção na respiração, escrever, criar, agir. assumir os efeitos colaterais e continuar seguindo. tudo isso sou eu diariamente buscando estar inteira na vida.
eu fui criada por dois malucos que não sabem parar. meu pai amassava suas latinhas de cerveja embaixo da janela do meu quarto quando o relógio dava 10h nos finais de semana porque era inconcebível pra ele que eu continuasse dormindo. já minha mãe, apesar de ficar brava e tentar fazê-lo parar de besteira, até hoje repete que “dormir é perda de tempo”.
meu pai não sabe ficar quieto. se não assovia, batuca. se não batuca, fala. se não fala, canta. minha mãe não sabe sentar nem quando vamos à praia. na família, nós sempre fazemos revezamento pra caminhar com ela porque, sem brincadeira, assim que ela chega de uma caminhada, depois de dez minutos já pergunta toda animada: “bora andar?”.
adoraria ter aqui comigo a foto que sinto que mais define minha pequena criança: 1995, Natal, RN. nessa época, era permitido subir o Morro do Careca. eu tinha 4 anos e meus pais acharam uma boa ideia me levar pra subir. na foto, estão os dois felizões e eu completamente jogada no colo da minha mãe com um olhar de quem pede misericórdia.
eu amo esses dois surtados que me trouxeram ao mundo e me botaram num carro nos anos 90 para viajar de Limeira-SP a Fortaleza-CE pelo sertão e voltar pelo litoral. sou grata com todas as minhas células por ser filha deles.
mas, porém, contudo, todavia… agora sou uma mulher adulta que aprendeu a perceber o próprio ritmo e ele é mesmo em uma marcha um tantinho mais lenta. digo um tantinho porque falo e faço as coisas muito rápido e gosto disso em mim.
o meu tantinho lento é o que ama o silêncio, o sono sem despertador, a cochilada de domingo à tarde, ficar na praia por hooooras sentada, tomando uma caipirinha, batendo papo e dando um mergulho no mar de vez em quando pra refrescar.
aprender a estar em paz com isso tem me feito ter mais tempo. e ainda não é confortável pra mim perceber que tô livre numa sexta à tarde tendo tanta coisa acontecendo. o pensamento é: “não é possível! estou no meio do lançamento da minha marca, dois eventos presenciais pra acontecer… tem que estar faltando alguma coisa”. mas não está. não hoje.
neste exato momento, às 15h51, tudo o que precisava ser feito, foi. tem outras tantas coisas a serem feitas na segunda. mas não hoje. percebe? aqui e agora tudo está em paz, eu estou segura e posso relaxar. à segunda, as pendências de segunda.
respiro tranquila. e te convido a respirar sentindo os pés no chão e percebendo que qualquer que seja o problema, aqui e agora tudo está no seu devido lugar.
a capacidade de dar corpo e soprar vida no que antes era apenas uma ideia é uma dádiva. mas é preciso Coragem Para Agir: deixar a terra vasta das ideias e trazer seu corpo, sua voz e suas crias para habitar o território fértil da realidade. e é isso que faremos juntas na próxima quarta-feira às 19h na aula gratuita Coragem Para Agir. você garante o acesso entrando no grupo de whatsapp (tranquilinho, silencioso, só com o essencial).
curadoria da semana
🎧gente, peloamordedeus, o podcast Irrisório Show da Jacira Doce me faz passar mal de rir na academia. já tive que parar o exercício, juro!
🎬eu assisti o documentário dos Raimundos que saiu na Globoplay porque eu amo biografias e porque meu companheiro é um homem hétero. e eu amei.
📚“mães podem gemer?” - eita que esse texto da Verbena Cartaxo na Comadreria mexeu comigo, hein?





É uma delícia te ler, Yna. Exageradamente identificada com o “preencher o tempo de afazeres por não saber lidar com a paz de ter tempo”. Últimos dias dedicados a essa reflexão por aqui
Li o texto sorrindo de orelha a orelha, justamente porque tô vivendo o oposto, chegando na sexta com as coisas que tinham que ser feitas na segunda ainda por fazer. Hahaha.
Contudo, entretanto, todavia.. independente das pilhas de coisas não feitas que não cabem num mesmo dia junto da maternidade que escolhi viver, tenho me permitido essa mesma medicina — pausar e estar no corpo.
E é esse o próximo bálsamo da Vagarosa que já tá pronto mas tá faltando aquela última edição virginiana. Hahahaha.
Sempre uma delícia te ler, comadre.
E vou repetir aquilo que já te disse uma vez: aproveita para dormir agora.
Obrigada por espalhar a palavra sobre a minha partilha lá na Comadreria.