ano passado, pela primeira vez, eu li Lolita. foi uma experiência aterrorizante lidar com a enxurrada de sentimentos contraditórios que esse livro me trouxe. eu não conseguia parar de ler, estava curiosa, envolvida e interessada, ao mesmo tempo que completamente enojada e indignada.
ainda me gera revolta pensar que o livro foi romantizado, ao mesmo tempo que penso que se isso aconteceu, realmente o livro é bom. se conseguimos entrar e enxergar do ponto de vista do protagonista a ponto de nos perdermos dos nossos próprios valores na ambiguidade de sentires, o autor só pode ter tido êxito.
o livro é horrível e muito bom.
quando estudava teatro, mergulhamos na obra de Nelson Rodrigues. uma perversão só! traições, fetiches e violências das mais estarrecedoras. fui Alaíde, a irmã que rouba o marido da outra em Vestido de Noiva e o que mais amava em cena era levantar minha saia até a virilha e dizer: “e quem é que tem pudor quando gosta?”. foi divertidíssimo entrar no universo perturbado do que é ser humano no íntimo, no primitivo.
tenho sentido medo de perdermos a arte.
estamos tão vigilantes e exigentes com como as coisas devem ser comunicadas para que não sejam ofensivas que talvez estejamos, aos poucos, perdendo as nuances, os detalhes e as incoerências que a arte aponta.
espero que entenda que de forma alguma estou advogando contra o respeito. concordo que existem obras e formas de fazer arte que não precisam perdurar. concordo que aquilo que não nos faz pensar, mas simplesmente ofende, diminui e invalida pessoas ou sentimentos não deva ser aceito.
mas aqui eu me refiro às provocações e aos desconfortos que nos fazem confrontar nossas próprias sombras, a história da humanidade, aquilo tudo que não é gostoso de ver, mas existe. no outro, em nós, no mundo.
recebi um comentário dizendo que A Megera Domada, de Shakespeare, é um livro nojento. retratar uma época onde a mulher era vista como um ser a ser domado não é nojento, é um fato histórico. não sei você, mas eu penso que é tão importante que a gente tenha esses registros para saber mais sobre quem fomos e quem somos.
a arte nunca se propôs a ser palatável.
ela existe para que a gente se emocione, seja qual for a emoção. se provocou alguma coisa: revolta, alegria, tristeza, conforto, amor… qualquer coisinha que seja, ela cumpriu seu papel. se o corpo reagiu chorando, se arrepiando, gargalhando… aí temos uma obra-prima!
tentar recusar as sombras é a forma mais eficaz de nunca conhecer a luz.
é no contraste que a vida acontece.
não sei, me pego triste de vez em quando pensando no que estamos perdendo quando nos afastamos do que dói, revolta ou frustra. eu não quero viver em um mundo de dor! mas para isso, preciso saber o que é a dor. para combater as injustiças, preciso conhecê-las.
a meu ver, a arte não normaliza. ela escandaliza para que a gente não se acostume. ela exagera para que a gente saia da indiferença. ela nos faz ver com uma lente de aumento tudo o que nos recusamos a encarar. e só assim podemos ser melhores.
a gente amaria viver na Terra do Nunca, né? livre dos problemas chatos dos adultos e rodeadas de fadas. mas isso só fez do Peter Pan um sinônimo de imaturidade e ignorância.
eu me recuso a emburrecer.
numa época onde tudo precisa ser palatável, explicado, polido e puro, permaneço do lado dos que desejam, se contradizem, erram feio, acertam bonito, sentem muito e escancaram nossos conflitos, hipocrisias e belezas.
se você também, desejo que continuemos lutando para que a arte e sua profundidade nunca morram. porque é bem verdade que só ela nos salva.

curadoria da semana
🎧estou apaixonada por todas as músicas da Mollie Elizabeth: são todas um tanto aterrorizantes e descobri que o estilo é Dark Cabaret. amei!
🎬um filme que amo e me fez sentir que dentro de mim se esconde uma fagulha dessa loucura é Pearl — principalmente na icônica cena “pleeeease, I’m a staaaaar”
📚foda-se o trauma, da camila bindel
Novidade gostosa: Comunidade Desejante está finalmente de portas abertas para recebê-las! Com encontros mensais, plataforma exclusiva para trocas e acesso ao conteúdo, grupo no whatsapp e espaço para que você seja realmente ouvida e possa aprender com outras mulheres. Temos dois planos, o mensal e o semestral, e aqui na página você conhece um pouco mais sobre nossa programação até o final do ano. E lembre-se: a Desejante é um território ocupado por mulheres que desejam, criam, expressam e sentem até o talo! aqui, você inteira é bem-vinda. Te esperamos!




Estava pensando sobre isso hoje. Percebo que vivemos em um meio, especialmente no campo das artes e da literatura, que nos cobra perfeição e a obrigação de saber tudo. Reconheço as problemáticas sociais e o lugar que ocupo como mulher branca de classe média, assim como as desigualdades de classe, raça e gênero que atravessam nossa sociedade.
Não se trata de deixar de questionar erros (ou crimes). Para mim, é evidente que eles precisam ser discutidos e responsabilizados. O que tem me assustado é a facilidade com que o apontamento se transforma em julgamento e linchamento virtual, até mesmo quando alguém apenas admite que não sabe algo ou que não conhece determinado(a) artista ou autor(a), ainda que seja uma referência nacional ou internacional em questões sociais.
Admitir o próprio desconhecimento deveria ser o começo de um aprendizado, não motivo para humilhação. Acho que somos capazes de encarar contradições sem precisar transformar o desconhecimento ou discordância de opiniões em uma sentença moral definitiva.
A arte vem me salvando inclusive, da busca de ser polida e sem defeitos. Mulheres são ensinadas de forma tão profunda a serem "o esperado", que vem exigindo anos da minha vida aprender a decepcionar.
Que a arte siga nos ensinando sentir! ❤︎