eu cansei de odiar os homens
eu prefiro desfrutar do meu tempo sendo o amor que preciso
eu já senti muita raiva de homem.
quando eu tinha 6 anos, estava na Bahia de férias com a minha família. numa noite, fomos a um bar com apresentação de dança e música ao vivo. eu, toda felizinha, comecei a dançar quando, de repente, um homem adulto me pega forte pelo meu pequeno braço tentando me levar pra pista. meus pais intervém, ele me solta e eu perco a vontade de dançar;
aos 12 anos, enquanto eu ia e voltava da sorveteria aos finais de semana, tinha que aguentar um velho nojento da casa da esquina piscar e me mandar beijos;
aos 17 anos, meu professor de química achou que seria uma boa ideia fingir que era uma das minhas amigas e pegar na minha bunda enquanto eu posava para uma foto;
aos 19 anos, fui assediada por um fotógrafo marido de uma atriz famosa — que eu soube recentemente que continua fazendo vítimas (se você receber um convite para ser fotografada por um velho que usa o apelo emocional que sua esposa causa em nós, millenials que crescemos assistindo ela na TV, não vá);
aos 23, eu saía de casa espalhando meu ódio através de escândalos toda vez que um homem me cantava na rua.
eu queria que todos eles ardessem no mármore do inferno. ao mesmo tempo que continuava aceitando migalhinhas de pseudo-relações e afundada até o pescoço no ideal do amor romântico forjado em mim por Hollywood.
querer ser amada por homens quando você descobre as cordas ardilosas e inescrupulosas do patriarcado é como querer ser amada por seu algoz. algo que aprendemos bonito com A Bela e A Fera. gera uma confusão mental, um gosto amargo na boca e uma baixada grande na libido.
mas não podemos fugir de quem somos e depois de um tempo habitando o terreno fervilhante e necessário da revolta, eu percebi que não era assim que eu queria viver. porque a verdade difícil de aceitar era que eu amava os homens. e um pequeno segredo: eu nunca me considerei inferior a eles. na verdade, eu me considero melhor em muitas coisas…
porque nós realmente somos. e eles realmente são em outras. e não necessariamente por causa dos nossos gêneros, mas porque pessoas são péssimas e ótimas em coisas distintas mesmo.
na escola, eu sabia que porque os meninos me subestimavam, eu sempre os convenceria a me dar um tazo. minha mãe não me deixava comer salgadinho, então eu não tinha outra forma de garantir os meus. “tá bom, eu te dou esse repetido!”. ótimo! era tudo o que eu precisava para entrar no jogo de bater bafo e ganhar mais uns 15.
isso, sim, acontecia por causa do meu gênero. e segue acontecendo. ter minha capacidade, astúcia e inteligência subestimada por um jurandir que vem todo faceiro me trazer uma reflexão profunda que eu fiz aos 13 anos, acontece com frequência.
eu simplesmente cansei de odiar os homens
caras continuam sendo caras e, como caras, continuam reproduzindo discursos e atitudes que corroboram com o machismo. mesmo os caras legais que a gente gosta, ama e convive.
mas não só eles… todos nós que nascemos e fomos forjados nessa estrutura. claro que, enquanto mulheres, nós trabalhamos, estudamos e estamos muito mais dispostas a ler, ouvir e trocar com outras para desagarrar da gente esse costume insalubre.
e não, Chico Bosco, nós não temos que ter mais paciência e educá-los, porque nós estamos fazendo isso há milhares de anos e não estamos tendo bons resultados. não por sermos professoras incompetentes, mas porque nossos alunos não comparecem às aulas, e quando comparecem, preferem conversar entre si a prestar atenção. a gente meio que cansou de falar sozinha, acho que dá pra entender, né?
homens precisam estar dispostos o suficiente para buscar por conta própria se tornarem melhores. e àqueles que insistem em permanecer na ignorância do alto de sua montanha legendária, o meu máximo desprezo.
mas não gastarei mais meu tempo e minha energia tentando odiá-los. até porque tenho na minha vida homens que amo, admiro e quero ao meu lado. meu pai, meu companheiro, meus amigos, meu sogro, meus sobrinhos, alguns tios e primos… homens e meninos que abrilhantam a minha vida e me fazem perceber que o problema nunca foi os indivíduos.
o problema é e sempre será o que essa estrutura capitalista patriarcal fez e faz com a gente. ela nos enfraquece, nos adoece, nos distancia… porque ela precisa que seja assim.
essa estrutura me quer odiosa, solitária, amarga e profundamente triste.
mas eu me quero amando, desejando, criando, gargalhando e atenta&forte para atravessar os desafios. ninguém se fortalece no ódio. na raiva, sim! a raiva é um meio de transporte para nos tirar do que nos aprisiona. mas assim que chegamos ao nosso destino, é preciso saltar. senão vira ódio e se enraíza nas nossas entranhas nos desviando da única coisa que realmente viemos fazer nessa vida: ser feliz.
dedico minha vida às mulheres porque os homens eu escolho amar, as mulheres eu amo como existo: simplesmente. fazer dessa existência uma luta e uma ode à autonomia feminina é o meu maior prazer.
eu não quero mais odiar os homens. eu prefiro desfrutar do meu tempo cultivando, espalhando e sendo o amor que preciso para dar conta da vida. e também continuar abrindo espaços para que os poucos e bons se juntem à roda com vontade de caminhar ao nosso lado. eu não os chamo mais, mas deixo a porta bem aberta pra quando a vontade de estar junto nessa desconstrução de tudo o que nos construiu até aqui, bater.
eu imagino o mundo bonito que poderíamos viver…
quem sabe um dia?!
quem sabe…
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curadoria da semana - especial homens que eu gosto
🎧eu descobri a banda do Joe Keery, o Steve de Stranger Things, e estou obcecada. até agora, essa é a que mais gostei
🎬finalmente assisti O Quarto Ao Lado, filme do Almodóvar com as deusas Juliane Moore e Tilda Swinton. eu amei, fiquei suspensa enquanto assistia, mas confesso que amo mais a força que Almodóvar tem em espanhol
📚absolutamente qualquer coisa que o Valter Hugo Mãe escreva, mas hoje indico esse aqui







incrível.