a tortura e o alívio de ser você mesma
exatamente nessa ordem
estou sentada à mesa de jantar. falando assim, talvez você imagine uma mesa grande, de madeira envernizada com os pratos e talheres organizados tal qual manda a etiqueta. mas a minha mesa — que não é minha, mas do dono real dessa casa — é pequena, feita com madeira compensada e pintada de um branco meio acinzentado. eu não gosto dela, acho um pouco feia. mas não é sua falta de beleza que me abala hoje.
estou olhando para o Lucas que está sentado no sofá enquanto conversamos sobre uma grande decisão que precisamos tomar. faz dias que levantamos todas as possibilidades, imaginamos todos os cenários, conversamos com familiares e ainda não conseguimos definir o rumo das coisas.
olho pra ele e digo enquanto choro: “eu amo essa cidade. amo o fato dela ser pequena, ter tudo pertinho. amo esse tanto de natureza, essa beleza toda. eu queria me satisfazer em largar minha empresa, arrumar um emprego no café e ficar aqui, vivendo essa vida tranquila”.a toru
dia desses fui trabalhar no café que mais gosto daqui. Lucas estava procurando um trabalho e pensei em perguntar se eles estavam contratando ali, já que ele tem uma grande experiência como barman. eles estavam e pediram pra ele ir lá na parte da tarde conversar com o dono.
ele foi e voltou me contando tudo. a carga horária é dividida em dois turnos porque o café fecha para o almoço — eu sei que isso não vai fazer o menor sentido para você que mora numa cidade grande como não fez para mim que vim de uma. o salário é ótimo para o custo de vida daqui e você ainda consegue aproveitar a praia na parte da tarde e estar em casa antes das 20h (sim, a escala é 6x1 como em quase todos os restaurantes, bares e cafés, mas isso é pauta pra outro dia).
para o Lucas não funciona porque na parte da manhã ele já tem outro trabalho. para mim não funciona porque eu já tenho a minha empresa. mas por alguns segundos, eu me permiti imaginar como seria se eu largasse tudo e fosse trabalhar de garçonete de novo. me permiti sentir o alívio de não ser responsável por um negócio e poder ter realmente hora para entrar e sair (principalmente mentalmente). ahhhhhh… solto o ar dos pulmões fazendo um leve som e volto ao trabalho.
— mas então por que você não larga tudo?
— porque eu não consigo, não faz sentido…
— como não? você não ama aqui?
— sim, mas eu não posso abrir mão de tudo agora!
— mesmo que isso custe a sua vida?
— mas o que eu estou construindo é a minha vida.
— estou falando da sua vida, só sua.
— sim…
— então você já tem a resposta!
eu demorei pra perceber que ele estava jogando comigo, soltando a linha para que eu mordesse a isca. só percebi quando fui fisgada.
— esses dias eu vi um post lindo da Verbena: ela estava fazendo bolinhos com a filha dela e eu entendi que eu quero muito ser mãe, mas eu não vou ser a mãe dos bolinhos porque eu não gosto de fazer bolinhos! eu achei lindo, eu queria ser a mãe dos bolinhos, mas eu não vou ser…
— sim, você já tem a resposta!
minha psicóloga me disse na quinta-feira que é muito bonito o momento em que eu estou. engraçado que todas as vezes que ouço isso, estou no auge do furacão da minha crise existencial e penso “fã ou hater, Bruna?”. mas eu tive que concordar quando ela me disse:
— é muito bonito esse momento de descoberta do que é verdadeiramente seu.
caiu por terra o eu idealizado mais uma vez. eu realmente imaginei que pudesse ser feliz com uma vida diferente daquela que pulsa dentro de mim para ser vivida. porque eu acho tão lindo quem consegue! uma vida mais simples, silenciosa… uma vida que algumas pessoas chamam erroneamente de “pequena”, mas que é tão grandiosa.
eu ainda quero cultivar a vida no tempo da terra. respeitando seus espaços e ciclos, sabendo que as coisas não acontecerão no ritmo da mente acelerada de quem tem mercúrio em áries.
mas eu preciso aceitar que não serei feliz trabalhando num café de uma cidade tranquila como não fui sendo garçonete na cidade grande. preciso fazer as pazes com a mãe que serei que não fará bolinhos deliciosos, mas se a visão que tenho estiver correta, levará no sling sua cria enquanto guia por aí as Residências Criativas.
eu não serei feliz sendo outra que não eu.
e por mais cafona que soe, a felicidade aponta, sim, o caminho. a minha pousou tranquila por um bom tempo onde estou e agora está me dizendo que cumprimos nossa missão nessa etapa e é preciso seguir viagem.
escolhas são agridoces, mas…
eu já sei a resposta.
no final de Julho, vamos ritualizar nossa energia criativa e abrir espaços para o prazer da criação, do descanso, da celebração e da troca num dos lugares mais lindos do nosso país: a Chapada dos Veadeiros.
a Residência Criativa é uma vivência para mulheres com sede de mundo e com o desejo de se tornarem cada dia mais quem são. somos muitas, acredite! e estaremos juntas por 5 dias nos divertindo e nos fortalecendo na força das águas das cachoeiras da Chapada.
vamos? todas as informações e o formulário de inscrição estão aqui.
curadoria da semana
🎧nunca fui fã de Paramore, mas a Hayley Williams lançou um álbum solo e eu estou simplesmente viciada em Good Ol’ Days. eu acordo e durmo com essa música na cabeça há uma semana.
🎬assistimos Devoradores de Estrelas e meu deus que filme bom, que filme lindo! quanta ternura, gente! nossa… a gente tá mesmo precisando de amor.
📚esse texto da Lanna Sanches Dogo atravessou meu coração e também inspirou o texto de hoje







que lindo isso de fazer as pazes com aquelas que não somos!! parabéns pelo texto, gostei demais ✨️❤️
Ameiiiiiiiii