todos os pratos estatelados no chão
deixar os pratos caírem é quase uma regra para que a felicidade se manifeste.
Deixar os pratos caírem.
Lembrar de não esquecer.
Colar na geladeira se for preciso. É preciso.
Lembrar de deixar os pratos caírem.
Não esquecer
de olhar na geladeira.
na minha primeira semana na nova realidade as obrigações foram: arrumar todas as roupas que possuo e que foram lavadas para eliminar o cheiro de mofo que a vida muito próxima ao mar proporciona; arranjar espaços para arrumar todas as roupas e todas as coisas; continuar o meu trabalho de atender pessoas, fazer reuniões e criar conteúdos enquanto lidava com a tristeza da despedida e a alegria da chegada.
as roupas foram lavadas e arrumadas, as mentoradas foram atendidas, as reuniões foram feitas, mas o meu corpo não deu conta de ir além: minha menstruação adiantou 4 dias e uma sinusite brabíssima me pegou de jeito.
por isso, tardes antes dedicadas à criação de conteúdo deram lugar a cochilos breves e restauradores. as manhãs também se estenderam em conversas profundas sobre os mais diversos e complexos assuntos com minha irmã (que está nos fazendo sua visita anual) e minha mãe.
eu que tenho uma rotina programada para dar conta de tudo o que me proponho a fazer, me vi navegando o tempo com outro barco, o possível.
e para a minha surpresa, assisti calmamente alguns pratos espatifarem no chão enquanto percebia a única verdade que a voz que me desvia do descanso tenta esconder: a vida continuou a acontecer normalmente.
nenhuma grande catástrofe aconteceu. a Terra continuou a girar, a chuva continuou caindo e, tirando um prato ou outro espatifado no chão, tudo estava em perfeita ordem em meio ao caos de aterrissar numa nova vida.
não é engraçado como passamos tempo demais sustentando inverdades desconfortáveis ao invés de nos lançarmos ao conforto de não ter em nossos pequenos braços a força necessária para dar conta de tudo?
os pratos que eu deixei cair abriram espaços para que eu passasse um tempo delicioso com meu sobrinho discutindo filmes, séries e a mente humana, gargalhasse e filosofasse com minha irmã e minha mãe entre uma xícara de café e outra e morresse de rir das reclamações do meu pai que está descrente da seleção brasileira mesmo ela tendo vencido de 3x0 no último jogo (“não é o Brasil que está ganhando, é a Escócia que está perdendo”, ele repetia).
cheguei na nova temporada da minha vida entendendo que deixar os pratos caírem é quase uma regra para que a felicidade se manifeste. é nas brechas da nossa distração que ela encontra tempo e espaço para se aproximar.
passei muitos anos lidando de maneira rígida com a minha responsabilidade e alimentando a crença de que fazer demais a qualquer custo era digno de recompensa. realmente acreditei que era essa “disciplina” que me permitia chegar onde eu desejava e que tudo de bom que tinha acontecido na minha vida, tinha sido mérito dela.
imagina o susto quando fiz as contas sem números e percebi que tudo o que mais amo chegou até mim nas brechas da distração?!
meu relacionamento, minhas melhores amigas, meu trabalho, as viagens que mais me diverti, as memórias mais vivas… nada do que me faz feliz surgiu do controle. então porque eu ainda acredito que só serei feliz se puder controlar os passos da vida?
porque as mudanças que a gente deseja não acontecem no ritmo da nossa idealização. elas vão sendo tecidas aos poucos, enquanto a gente se permite agir diferente um pouquinho por vez.
eu estou muito comprometida em me fazer feliz e eu sei que isso vai me custar deixar de ser quem eu sempre acreditei que fosse. ao mesmo tempo, sei que essa vontade de fazer muitas coisas e devorar a vida nunca me deixará por ser parte inerente de quem sou. só preciso aprender a navegar em outro ritmo, ajustar o tom, afinar as cordas e harmonizar os sabores.
nem tanto o céu, nem tanto a terra. mas assim na terra como no céu.
enquanto observava os pratos caídos no chão, o poema da Verbena que iniciou esse texto se repetia como uma oração dentro de mim. “lembrar de não esquecer” que tudo está em calma.
criar espaços onde o descanso e o prazer sejam a única regra é o que tem me movido a construir as experiências presenciais da Desejante. por todas as mulheres que precisam deixar os pratos caírem e voltar a sentir a vida atravessando suas células num ritmo gostoso que faz o movimento suave do corpo ser inevitável. pelo menos por 5 dias, suspender o tempo e descobrir outra forma de estar no mundo.
estamos nas últimas 2 vagas para a Residência Criativa na Chapada dos Veadeiros e já abrindo as portas da edição na Praia dos Carneiros com 2 vagas preenchidas. em cada um dos sites você conhece os detalhes de cada experiência que tem em comum o seu conforto: nossos pacotes incluem absolutamente tudo (exceto passagem aérea).
além de te levar para viajar, nosso desejo é te levar a habitar um espaço-tempo onde ser, sentir e estar presente sejam as únicas regras. vamos?
curadoria da semana
🎧enquanto escrevia a última frase desse texto, essa música começou a tocar na minha cabeça
🎬nenhum filme fez mais pelo meu encantamento com a vida do que esse
📚prescrevo Verbena para todas as mulheres que precisam voltar a sentir o tempo. esse texto é um daqueles que nos ajuda a soltar o ar devagar…





Amei!! Li ainda na cama, logo depois de acordar! Um ótimo lembrete de que não precisa equilibrar todos os pratos a todo custo 🩷
que texto incrível para começar a semana, amei!