toda mulher é um alvo
ainda assim, eu acredito que a nossa maior resistência é a ousadia de vivermos uma vida regada ao prazer.
faz 8 anos que sou uma das partes de um casal. e nesse início de ano, curtimos pela primeira vez o carnaval separados.
eu achei curioso como foi pauta de interesse genuíno das pessoas a minha ida aos blocos. um olhar às vezes de admiração, às vezes de desconfiança. percebi que essa simples atitude foge ao senso comum do que é permitido nas boas práticas de um casamento que aparentemente segue às normas.
curioso como, no imaginário coletivo, pessoas casadas não podem mais existir individualmente. curioso também como quando uma mulher sai de perto de seu homem, aparentemente alguém ganhará um par de chifres. o cara já vira alvo de piadas e a mulher, de pena.
no meu caso que vivo numa bolha progressista circundada por pessoas não-monogâmicas, foi diferente. responder “sou casada” pros interessados que se aproximaram não parecia dizer nada, eu tinha que frisar que não estava aberta a beijos aleatórios.
mas uma coisa sobre mim é que casada ou não, eu nunca estive aberta a beijos aleatórios em micaretas e carnavais porque sou nojenta e aquela boca já beijou cinquenta, bebeu bebidas duvidosas, usou alucinógenos, fez xixi na rua e botou a mão na boca… sabe? eca. e outra: eu não entendo o conceito de beijar, virar as costas e ir embora. já fiz? já porque sou gente. gostei? não. não faz sentido pra mim. não é aí que mora o meu tesão.
eu fui profundamente feliz no carnaval. eu amo essa festa e fazia anos que não ia. estava doida pra me encher de glitter, vestir uma roupa escalafobética e sair a pé pelas ruas. dancei, pulei, encontrei amigos que não via há anos, bebi um treco que amei chamado Gingibre, fiz amigos que me encheram ainda mais de glitter, comi cachorro quente e finalizei o dia na casa da minha melhor amiga, de banho tomado e assistindo Gilmore Girls até dormir.
fiquei fantasiando que seria muito lindo se o mundo todo fosse aquele bloco pequeno da zona oeste paulistana onde crianças, jovens, idosos e cachorros vivessem em profunda celebração. onde houvesse, sim, o flerte, o tesão e o amor, mas com respeito.
fiquei desejando que todos os homens fossem como àqueles que chegaram com seus interesses para mim sem invadir meu corpo, perguntando meu nome e qual era a minha vontade naquele momento. ao ouvirem meu não, sorriam e me deixavam com um elogio e um desejo de “bom carnaval!”.
meu deus, como o mundo seria um lugar ainda mais gostoso de viver!




direito ao prazer
não deveria ser tão inusitado uma mulher se entregar profundamente ao prazer de fazer por si o que desperta alegria. mas talvez ver uma mulher sendo feliz cause tanto estranhamento porque o normal é o nosso sofrimento.
ano passado, nosso país registrou um estupro a cada seis minutos.
as pautas são nossa exaustão, nosso esgotamento, nossas dores, nossa profunda insegurança e nossas mortes. é isso que se vê todos os dias nos noticiários e nos conteúdos. e é necessário mesmo que se veja porque é necessário que se saiba.
ainda assim, eu acredito que a nossa maior resistência é a ousadia de vivermos uma vida regada ao prazer, ao contentamento e ao deleite. nossa maior força aparece quando olhamos no espelho e paramos de enxergar o que nos falta para caber no que dizem por aí que é aceitável e bonito.
no momento que deixamos de acreditar nas ameaças de isolamento e solidão e acendemos a coragem de proteger nossos territórios com garras e dentes afiados, nos libertamos. e, justamente por isso, nos tornamos alvo.
é, sim, uma ameaça às estruturas vigentes a nossa liberdade. falo isso porque não quero romantizar nada aqui. é preciso que a gente se paute na realidade dos fatos e, infelizmente, ela é cruel.
mas não dá para vivermos com medo, não se vive direito assim. e, porra, eu quero viver direito, eu quero viver gostoso. eu quero celebrar a vida o ano inteiro, não temê-la.
decidi que vou esfregar a minha vida bem vivida na cara do mundo. vou desfilar vestida da cabeça aos pés de desobediência e com meu desejo a tiracolo como se fosse uma Birkin¹. vou celebrar a minha vida e a de outras mulheres e nos amar em voz alta.
ao mesmo tempo que vou continuar atenta aos dados, aos votos, às ações possíveis e concretas e seguirei estudando o que nos trouxe até aqui.
não podemos nos alienar e não devemos desistir de reivindicar o nosso direito ao prazer. nós temos direito ao descanso, ao ócio, à liberdade e ao deleite. mulher cansada não faz revolução.
então, vamos fechar um compromisso de fazer com que o ano inteiro seja esse grande carnaval para nossos corpos. uma vida bem vivida é a melhor resposta que podemos dar e o maior legado que podemos deixar.
que a deusa te abençoe, mulher!
e que ela dê em triplo ao Vitor Hugo Oliveira Simonin, ao Bruno Felipe dos Santos Allegretti, ao Mattheus Verissimo Zoel Martins, ao João Gabriel Xavier Bertho e aos seus iguais tudo o que eles escolheram perpetuar nesse mundo.
"toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei."
— Caibalion
nada escapa à Lei.
feliz dia da mulher. vai, sim, ser feliz!
bora se ver em São Paulo?
— dia 30/05 vai acontecer o Território de Criação na Casa Magdala! um dia inteiro de práticas para te levar ao encontro do desejo e te colocar na ação de expressá-lo através do corpo, da fala e da criatividade. além disso, muito pipipi popopó e cocotices porque merecemos.
— alerta novidade: estou abrindo agenda de mentoria focada nesse caminho até o desejo. em 6 encontros, vou te conduzir no processo de realização do que está fazendo hora extra aí dentro, implorando para vir ao mundo. comunicação, autonomia e coragem serão nossos guias. para descobrir se é pra você, agende uma conversa gratuita comigo aqui.
curadoria da semana
🎧a nova música da Raye tá bonita demais
🎬esse vídeo da Dandara Suburbana me tocou muito
📚esse texto da Ananda Sueyoshi me fez chorar tanto num sábado de manhã… é tão, mas tão bonito que merece demais a sua leitura





Acho que buscar prazer e viver com liberdade também é uma forma de resistência.
Ahhh, Yna... Seu texto me fez chorar de tantas formas diferentes e misturadas. Brigada, sempre, por sentir e dividir o mundo com a gente