talvez eu seja uma fracassada
sobre desejos, sonhos, sucesso e fracasso
tenho pensado muito sobre o sucesso.
desde que minha intuição disse em alto e bom som quais seriam meus próximos passos, existe uma discussão acontecendo dentro de mim quase que diariamente.
vocês se lembram de quando a Ana Paula Arósio abandonou uma novela e se mudou para uma fazenda no interior de São Paulo longe dos holofotes? ou de quando a Britney Spears raspou os cabelos sob os flashs de dezenas (ou centenas?) de paparazzi?
eu lembro de rir dos memes e pensar que elas eram malucas. uma abandonou o meu maior sonho da época e a outra tinha absolutamente tudo o que qualquer garota dos anos 2000 desejava. eu, no lugar delas, jamais abandonaria essa sorte.
mas conforme a vida adulta foi se tornando minha casa permanente, ficou muito mais fácil entendê-las. hoje afirmo com convicção: possivelmente, eu teria feito o mesmo. talvez me salvaria do destino da Britney por ter uma família decente e amorosa, mas nunca se sabe…
quando escrevi essa edição, eu não imaginei que vocês, caras leitoras, já fossem sacar logo de imediato que eu iria me mudar. não por subestimar a inteligência de vocês, mas porque eu achei que estava sendo um tanto misteriosa nas minhas palavras — o que me prova que eu realmente não tenho talento algum para disfarçar as coisas.
no dia da publicação, recebi uma mensagem de uma seguidora muito querida dizendo que ficou mexida com minha decisão porque me tinha como uma referência de que é possível ter uma vida simples e desacelerada numa cabana no meio do mato. a mensagem dela também mexeu comigo.
é claro que eu sempre quis ser algum tipo de referência para outras mulheres, senão eu não estaria aqui fazendo o que faço. mas como boa ariana que age e depois pensa, só agora eu estou percebendo o que isso causa dentro de mim.
a mensagem dela me fez perceber que eu estava com vergonha de dizer que estou voltando para o interior de São Paulo e que, nesse primeiro momento, morarei com meus pais. eu, meu companheiro e nossos desejos de crescer nossos respectivos trabalhos, comprar um terreno e engravidar (não necessariamente nessa ordem). li as mensagens de “animada para saber o próximo destino” e antecipei a decepção de quem agora saberá que ele não é tão instagramável assim.
e de repente me toco de como essa lógica produtivista nos sequestrou da realidade. eu que mudei de profissão para poder viver como desejo, ainda sou pega no pulo podando minhas asas. a vigia deve mesmo ser constante…
eu estou feliz. depois de viver o luto de ir embora do lugar que amo, estou feliz em dizer que faço isso porque ouvi o meu desejo. estou abrindo mão da vista impecável para o mar para estar mais perto das pessoas que amo enquanto cresço a empresa que criei com tanta vontade e abro espaços para começar a tentar trazer ao mundo o maior de todos os meus desejos: minha cria humana.
me impressionei com a emoção das minhas amigas, com o incentivo das minhas cunhadas, com a alegria da minha sogra e a torcida das minhas tias. não vou citar meus pais porque a felicidade deles era visível da Lua.
todo mundo que contei concordou com a decisão e considerou a melhor possível. sem eu nem abrir a boca, todas as mulheres disseram: “vai ficar melhor, agora com o bebê” — e isso tem confundido uma galera que acha que eu já estou grávida (não estou, gente hahaha). é como se vida estivesse se encaixando para acontecer.
a vergonha que eu senti vem de uma métrica neoliberal de sucesso que nos coloca isolados enquanto indivíduos. aceitar ajuda e voltar pra casa se torna sinônimo de fracasso. mas aos olhos de quem? porque aos olhos da minha vila, não. ninguém me olha com pena ou me vê menor, pelo contrário.
minha cunhada me disse que não tem nada melhor do que estar perto da sua mãe enquanto você se torna mãe. que a presença da minha sogra por perto era tudo o que ela queria, mas ela mora a um oceano de distância.
uma amiga de infância me confessou que o sonho dela é voltar pra nossa cidade e ficar perto da família e dos amigos, mas por conta do trabalho do marido, ela não pode.
pra onde eu estava olhando?
pra onde você está olhando quando pensa em ouvir o seu desejo?
eu escolho contar a história de uma mulher que assume os efeitos colaterais de viver a partir do próprio desejo, guiada pela própria intuição e que, mesmo sentindo vergonha ou qualquer sentimento humanamente natural, segue.
é essa a referência que desejo ser enquanto subcelebridade de nicho (como diz Ananda Sueyoshi).
nossas próximas aventuras acontecerão a partir de Limeira-SP, mas continuarão atravessando fronteiras.
e esse é o meu recado pra você que está com vergonha do próprio desejo:
se o seu corpo fala, escute. se a sua alma pede, entregue. a vida quer acontecer, mas a gente perde tempo demais julgando como ela decide se manifestar. deixa que ela flua e siga seu curso.
porque no fim, todo rio encontra o mar.
toda essa mudança e o acontecimento que foi o Território de Criação me pediram tempo e silêncio para que eu decantasse o que senti. por isso, semana passada não tivemos edição e estamos há duas semanas sem episódio novo do podcast. e é exatamente assim que eu escolho conduzir minhas criações daqui pra frente: respeitando meus ciclos, meu corpo e tempo que preciso para criar. não quero mais ter minha vida sequestrada por uma métrica irracional de produtividade e sucesso.
quero saber como você se sente sobre isso. responda esse e-mail ou me escreva nos comentários. quero muito te ler.
curadoria da semana
🎧devagar, meu bem — essa preciosidade do Giuliano Eriston
🎬estamos na reta final das inscrições para a Residência Criativa na Chapada dos Veadeiros e nesse vídeo lindo mostramos o que viveremos juntas em 5 dias de tempo suspenso, entrega e afeto. aqui você tem todos os detalhes e preenchendo o formulário, entramos em contato para tirar suas dúvidas e viabilizar sua inscrição — vem! vai ser uma travessia bonita demais!
📚eu amei essa edição da Melhor contar






Chorei com seu texto. Tao sincero e tao preciso. Essa pergunta vai me acompanhar: " Para onde estou olhando?
Obrigada e que tudo corra bem !!
Que texto precioso. Ressoou tão forte aqui. Eu fiz esse mesmo movimento de ir morar perto dos meus pais quando meu primeiro filho nasceu. Hoje somos vizinhos e eu vivo uma vida com sentido muito profundo, que aliás eu sempre tive, mas que por um momento a lógica neoliberal de sucesso também havia me tirado (ou distanciado). Sair de São Paulo e voltar para Minas, para perto da minha aldeia, foi e continua sendo a melhor escolha da minha vida. Que você colha muitos frutos por sua coragem de olhar verdadeiramente para si. E obrigada também por citar meu texto, feliz que tenha te tocado. <3