se não fosse a minha mãe...
ser filha é gostoso demais.
eu e minha mãe não somos muito de datas. tirando aniversários que comemoramos com empolgação e o Natal que sempre nos prometemos que será melhor no próximo ano, os dias comerciais das mães e dos pais nunca foram tão importantes.
mentira! eles foram muito importantes pra criança que fui. ela adorava ensaiar e apresentar as danças e homenagens que a escola produzia e não via a hora de chegar em casa com o presente feito a mão na aula de artes.
até hoje, mamãe tem pendurado na parede um Picasso horroroso que eu reproduzi na escola aos 13 anos. ela insiste que é lindo e eu já esgotei meus argumentos tentando convencê-la a guardá-lo no fundo da gaveta. “foi aquela menina que me deu! ela veio toda orgulhosa do próprio desenho!”, ela diz.
mamãe só não compareceu a um único dia das mães. ela tinha acabado de fazer uma cirurgia séria no olho e precisava ficar de repouso. pra que eu não dançasse pra ninguém, mandou minha tia (sua irmã) em seu lugar.
eu sabia que minha tia ia, estava tudo combinado. mas até hoje eu lembro da sensação de tristeza que eu senti quando meu olhar não cruzou com o da minha mãe na plateia.
mamãe sempre foi a mais nova das mães das minhas amigas. ela me teve com 22 anos, depois de uma gravidez dificílima. nunca ouvi falar de ninguém que emagreceu na gravidez além dela que só conseguia comer alface com limão — e eu até hoje sou apaixonada por coisas ácidas e cítricas. ela passou a gravidez toda precisando repousar porque eu ameaçava ir embora a todo momento.
agora que eu estou adulta, ela me revelou que tinha uma dualidade de sentimentos sobre isso. em alguns momentos, pensava que me perder talvez fosse a melhor solução para acabar com aquela tortura. em seguida, vinha uma onda de culpa por ter cogitado algo tão ruim. eu entendi perfeitamente aquela garota de 21, 22 anos que era super ativa e de repente se viu tendo que passar 9 meses deitada e sem conseguir comer.
na astrologia, a nossa lua pode dizer como nossa mãe estava se sentindo durante a gravidez. a minha é em gêmeos… a dualidade sentida por ela hoje é a minha maneira de sentir e perceber o mundo.
depois que eu nasci, mamãe ficou em casa cuidando de mim até os meus 5 anos. colocou seus sonhos e desejos em suspensão e focou naquele serzinho que ela havia produzido com tanto esforço dentro de si.
não bastava ter passado por tudo o que passou na gravidez, precisou enfrentar os comentários desagradáveis de quem achava que ela era minha babá por nossa diferença de cor. “você é a mãe? então ela é a cara do pai?” — fomos entender a gravidade disso muitos anos depois.
é verdade que eu tenho as cores do meu pai. a pele branca, os olhos claros e as sardas amarronzadas. meu pai só pintou, mas quem deu forma foi ela. o mesmo sorriso, os mesmos cachos, o mesmo quadril largo, a mesma hipermobilidade, os mesmos braços compridos, os mesmos pés com um osso a mais… hoje em dia, só ouvimos o quanto somos parecidas!
e somos mesmo. temos também a mesma ânsia por viajar e conhecer o mundo, o mesmo otimismo, o mesmo gosto pelo produto mais caro da prateleira do mercado, o mesmo amor pelo mar, a mesma gargalhada alta que gera constrangimento e a mesma brabeza.
olha, se não fosse minha mãe, eu não teria conhecido tantos lugares. ela comprou a passagem da minha primeira viagem internacional, pra Nova York. e quando minha amiga Vic me convidou pra conhecer o Chile, eu não tinha o dinheiro todo. foi ela quem pagou e me permitiu pagá-la aos poucos e sem juros. quando decidi que realizaria meu sonho de conhecer Paris, ela me incentivou e ficou tão empolgada como se estivesse indo junto.



eu tenho plena consciência de que tudo o que eu sou e faço hoje é fruto do incentivo dela. mas não me sinto em dívida.
uma vez, uma amiga me disse que é impossível recompensar quem te deu a vida porque não existe nada maior do que isso. a única forma de retribuir é vivendo. e eu consigo ver refletido nos olhos dos meus pais a alegria que eles sentem em me ver desfrutando do maior presente que eles me deram.
mas claro, ainda tenho uma promessa a cumprir: levar minha mãe para realizar o sonho de conhecer a Europa. ela quer provar os vinhos franceses, os queijos suíços, a pizza de Nápoles, o jamón espanhol, o pastel de Belém… e eu vou levá-la. não sei quando, mas sei que vou.
hoje o maior de seus pedidos é uma neta, então a viagem precisa esperar.
e quando essa garotinha vier, eu pretendo ser pra ela o porto seguro que minha mãe é pra mim. pra que ela também sinta que possa ir quando desejar e voltar quando quiser ou precisar.
eu poderia terminar esse texto aqui e deixar o tom sentimental nos inundar. mas eu prefiro terminar com uma imagem que define a diva muito mais. minha mãe, senhora e senhores:
um sonho dela, eu consegui ajudar a realizar. mamãe é uma excelente cozinheira e uma grande apaixonada pela gastronomia. inclusive, fez vários cursos em instituições renomadas como o Senai e já teve duas empresas na área. por coisas da vida, precisou se afastar. mas eu puxei ela de volta comigo nas Residências Criativas. ano passado, ela foi o grande sucesso da edição de Carneiros: suas receitas e suas histórias foram listadas como uma das experiências preferidas das mulheres que foram com a gente.
esse ano, ela será responsável também pelas refeições da edição da Chapada dos Veadeiros (29/07 a 02/08). essa preciosidade está inclusa no nosso pacote! as vagas são limitadas, mas ainda temos espaço nessa roda. para ler os depoimentos, ver os detalhes das informações e garantir o seu lugar, acesse aqui.
curadoria da semana
🎧uma das músicas que minha mãe cantava pra mim
🎬minha série preferida sempre retratou um pouco da nossa relação
📚esse texto lindo da Luiza Lutz sobre memórias e saudade





