quem não tumultua, se afoga no próprio silêncio
é preciso falar a língua do caos se queremos desfrutar da suculência adocicada da vida
o único antídoto para o tédio, a falta de criatividade, a insatisfação e a sensação de estar desperdiçando seu tempo na Terra é aceitar ser vista como uma grande maluca, lunática, tantan das ideias enquanto ouve profundamente a sua intuição, descobre o poder das plantas, faz feitiço com as palavras, dança sozinha na sala, ouve seu corpo e desafia o mundo com suas interrogações suspensas no ar.
eu achava que esse negócio de negar a normalidade era coisa de adolescente imaturo. adulto de verdade segue as regras e ri da insensatez da juventude.
até que cheguei na vida adulta e a única coisa que me faz rir é pensar que eu temi pela minha sanidade por questionar as incoerências do mundo.
tenho um tio esquizofrênico. por trás das coisas sem sentido que ele fala, existe uma inteligência enorme. ele passou em diversos vestibulares e entende de tecnologia de uma forma que me deixa embasbacada.
na série Monster - A História de Ed Gein, tem uma cena em que o psiquiatra diz que para os esquizofrênicos, é como se tudo o que pensassem ganhasse vida. sabe essas vozes que falam na sua mente e te deixam confusa? uma representando seu medo, a outra sua coragem e você no centro sem saber quem ouvir. pois então, para os esquizofrênicos, elas se tornam duas pessoas de verdade lutando por sua atenção.
essa cena me ajudou a entender meu tio. e me ajudou a perceber que eu sou completamente capaz de aumentar ou diminuir o volume do que penso. ao contrário dele, eu sei que são pensamentos. eu consigo respirar fundo e dominar o foco da minha atenção.
eu não sou louca.
às vezes eu acho que minha loucura vem do excesso de lucidez. e logo depois penso se não é um tanto arrogante de minha parte pensar assim. mas fato é que as coisas que mais me perturbam são dados da realidade.
nas redes sociais, quando digo que toda mulher que expõe sua opinião com convicção e segurança é chamada de bruxa e se torna o alvo, recebo centenas de comentários discordando agressivamente e provando meu ponto. me pergunto como eles não percebem que estão me dando razão…
mulher tem que ser dócil
“mulher apazigua, não tumultua”. respiro fundo enquanto leio esse comentário escrito por uma mulher. “perder a classe, a feminilidade”. mais uma respiração profunda.
as mulheres das quais descendo não são apaziguadoras. eu as vi conquistando tudo na base do caos. não vejo isso como falta de classe, mas como estratégia de sobrevivência.
eu pude ser mais dócil, como Mel descreve no comentário. tive uma infância protegida que me permitiu ver o mundo com olhos inocentes por um bom tempo. mas depois que fui solta na realidade, percebi que se não afiasse meus dentes e garras, seria presa fácil.
por isso, eu digo com convicção que mulher tem que ser feroz.
eu percebo que muitas ainda tentam manter uma imagem de doçura com o pretexto de performar uma feminilidade agradável e palatável ao olhar masculino. porque homem não gosta de mulher que isso ou aquilo. homem de verdade gosta de mulher delicada, doce e… manipulável. sendo também o homem de verdade um estereótipo patético e falido da tal da masculinidade.
“é possível proteger nosso território, deixar claro nossos limites, abalar os céus caso necessário, e ainda ser disponíveis, acessíveis, férteis, tudo ao mesmo tempo”
Clarissa Pinkola Estés
não falto com educação e não invado os espaços alheios, mas se ainda assim, aos olhos de outro, serei louca por defender o que acredito e agressiva por delimitar minhas fronteiras, assumo os efeitos colaterais.
eu aprendi com meu próprio clã que é preciso falar a língua do caos se queremos desfrutar da suculência adocicada da vida.
mulher que não tumultua, se afoga no próprio silêncio.
feroz, fértil e Desejante!
dia 15/04 às 19h vou dar uma aula gratuita, a Coragem Para Agir. o objetivo é te entregar repertório e práticas para ativar a coragem de ouvir e expressar o desejo. você que me lê é uma mulher criativa cheia de projetos e com sede de vida, então eu te garanto que essa aula é pra você.
é também uma forma de estarmos juntas e mais próximas, já que por aqui não conseguimos nos olhar nos olhos. então, para participar, você precisa estar no grupo de whatsapp onde vou enviar o acesso à aula — será pelo Google Meet, por isso a necessidade de estar no grupo (que é silencioso e pontual, fique tranquila).
curadoria da semana
🎧o novo álbum da Raye está uma obra-prima, peloamordedeus! já ouvi inteiro umas três vezes e não pretendo parar
🎬assisti Amor&Morte na Netflix e, apesar do início ralentado, adorei a história (baseada em um fato) e a interpretação da diva Elizabeth Olsen
📚estou lendo Um Teto Todo Seu da Virgínia Woolf e uau, né? que exercício maravilhoso é ler Virgínia. ela nos desafia o tempo todo! não é fácil acompanhar seu fluxo, mas é surpreendentemente lindo o que encontramos em cada curva




