quando tentei desaparecer
uma história íntima sobre como uma personagem me orientou na busca e descoberta de mim mesma
- qual a diferença desses dois?
- uma tortilha pode ser de milho ou trigo. mas uma tortilha de milho dobrada e com recheio é um taco. uma tortilha de trigo recheada é um burrito, se o burrito for frito é uma chimichanga. uma tortilha torrada é uma tostada e uma enrolada é uma enchillada.
- será que você pode repetir, por favor?
a primeira vez que me encontrei com Emma Morley foi em 2009. eu era uma garota de 18 anos que tinha acabado de sair do mundo seguro que conhecia para encarar a capital paulista e um curso de teatro.
numa tarde qualquer na casa de uma amiga, o filme escolhido para nos tirar do tédio foi Um Dia, estrelado pela Anne Hathaway e pelo Jim Sturgess.
me conectei a protagonista logo de cara. seu desejo de realizar algo maior e a maneira como se sentia meio deslocada tocaram em algo que era só meu, aqui dentro.
Emma se achava bastante inteligente, mas não se sentia bonita ou atraente. se via muito desajeitada, nada sexy e nerd demais. sem nenhuma modéstia, eu sempre me achei inteligente e bonita, mas aos 18 anos, eu não conseguia me ver como uma mulher atraente. eu não sabia flertar e não sabia o que fazer quando alguém que eu estava interessada flertava comigo.
eu também não me sentia descolada, sabe? não era tão solta, tão sexy, tão destemida quanto algumas meninas que eu conhecia. e eu adoraria ser.
Emma era apaixonada por Dexter, o clichê do cara popular, rico e levemente irresponsável. eu sinto que ela via nele tudo o que ela desejava ser, mas não dizia. ela também queria ser mais livre.
eu não tive um Dexter. eu tive a G.
G. era minha amiga desde o ensino médio. uma garota autêntica, lindíssima e que cortava a gola da camiseta da escola pra ficar levemente caída nos ombros. eu achava o máximo! ela era tão livre das pressões que eu me colocava. G. se permitia viver experiências, se jogava em histórias malucas e corria os riscos que me faziam tremer na base.
eu queria ser como ela. e eu tentei.
em 2012, eu me mudei para o Rio de Janeiro e fomos morar juntas. ela já morava lá há um tempo e, por coincidência, precisava sair do lugar onde estava na mesma época que eu chegaria pra minha nova vida carioca. sincronia perfeita da vida! lá fomos nós dividir um apartamento no último andar de um predinho baixo sem elevador na Rua Alice.
eu nunca esqueci do nosso primeiro dia juntas. para comemorar a minha chegada, descemos no boteco da esquina de casa e brindando com um shot de cachaça nosso novo lar. e eu me lembro de olhar pra ela e pensar que aquele era, finalmente, o nascimento da minha nova versão. longe de casa, longe de tudo o que eu conhecia, longe de tudo o que eu havia sido, eu finalmente me tornaria uma garota livre igual a G.
e como você que me lê já deve ter concluído: isso nunca aconteceu.
depois de alguns meses, eu e G. brigamos feio. ela queria que eu fosse menos chata, eu queria que ela fosse mais comprometida. eu me importava demais com todas as coisas, ela sempre achava que não precisava de tanta preocupação. ela pegava minhas roupas sem pedir, eu era filha única demais para relevar. ela queria chamar os amigos em casa, eu tinha medo de receber uma multa.
um dia, cheguei em casa e encontrei um colar de pérolas falsas estourado no chão ao lado de alguns papeis sujos de batom vermelho. G. havia passado a manhã toda ensaiando uma cena e saiu correndo para não chegar atrasada na aula. eu, que tinha passado o dia anterior limpando o apartamento, tive uma crise de choro enquanto recolhia as bolinhas peroladas espalhadas.
liguei para ela e disse tudo o que estava travado na minha garganta em meses minutos antes dela entrar em cena. timing completamente errado. brigamos feio e nossa amizade acabou ali.
em uma cena de Um Dia, Dexter diz a Emma que “aqueles que sabem, fazem. aqueles que não sabem, ensinam”. nessa fase, ela era professora e aquelas palavras entram pelos seus ouvidos como álcool na ferida. G. me disse na mensagem que escreveu que eu precisava deixar de ser filhinha da mamãe, que eu não estava “preparada para a selva”.
um ps rápido: no final da briga de Dex e Em, ela diz a ele a frase que acho uma das mais lindas da dramaturgia e você pode assistir a cena no vídeo abaixo.
“eu te amo, Dexter. muito. eu só não gosto mais de você”.
depois daquele momento, Emma se libertou da versão de si que desejava ser tão diferente de quem era, que só conseguia enxergar o que faltava. ela enxergou seu tamanho e percebeu que tudo o que estava errado em sua vida, estava ali porque ela achava que era o que merecia.
depois de cortar esse cordão frágil que a conectava a Dexter, ela lançou um livro infantil de sucesso e finalmente conquistou seu espaço como escritora.
não foi depois de G. que eu me encontrei, mas foi definitivamente ali que eu entendi que eu nunca seria quem eu simplesmente não era. quando li a frase da selva, eu ri. não me senti ofendida porque olhei para tudo o que eu já tinha passado e estava passando e percebi o quanto eu aguentava o tranco. foi a primeira vez que eu senti orgulho de ser como eu era.
no ano seguinte, voltei para São Paulo e me tornei garçonete.
- tem suco de quê? (pergunta o cliente olhando para o cardápio mas não lendo)
- laranja, limão siciliano, abacaxi, abacaxi com hortelã e uva.
- me vê um de maracujá!
a cada diálogo como esse — que acontecia com frequência — me lembrava de Emma. estava seguindo os passos dela, então eu sabia que estar ali era só uma fase. confesso que eu exagerava um pouquinho na insatisfação para me sentir ainda mais parecida com ela. ai ai, jovens…
- eu quero um filho com o homem que eu amo. e se ele não quiser, pode ser com você…
é assim que ela fala para Dexter que deseja ser mãe. esse humor seco e irônico é uma das coisas que amo sobre ela. hoje eu também desejo um filho com o homem que amo e vira e mexe essa cena passa pela minha cabeça.
Emma é uma personagem que me dá esperança. que me lembra do meu lado mais frágil e míope, mas também o mais bonito, criativo e verdadeiro.
hoje eu passo por mais uma fase de troca de pele e tenho tido uma vontade danada de pausar o mundo para me encontrar. mas a vida não para. não parou para Emma se entender e, mesmo assim, ela deu conta de se encontrar pelo caminho.
por isso, me inspiro nela para enxergar o que amo, mas não gosto mais e preciso deixar ir, recorro ao seu humor para rir das crises de raiva, choro e tédio que me atravessam e desejo escrever o capítulo que o autor não permitiu que ela escrevesse.
peço para que o roteirista da minha vida seja mais generoso, mas sigo vivendo lembrando que não importa o que aconteça amanhã, nós tivemos o hoje.
curiosidade: assisti o filme aos 18. aos 21, eu finalmente li o livro. adivinha quem me emprestou?
Mural do Desejo
estamos na reta final das inscrições para a Residência Criativa na Praia dos Carneiros! elas se encerram no dia 15/09 e restam apenas 2 vagas para fecharmos essa roda de mulheres desejantes por criarem e expressarem seus desejos com coragem. para conhecer os detalhes, clique aqui — fique à vontade para me enviar uma mensagem e tirar suas dúvidas, tá bem?
Curadoria da Semana
🎧faça um favor para a sua alma e ouça Zé Ibarra
🎬assisti Sereias, na Netflix, e não só recomendo, como desejo que todas as mulheres que me leem assistam. preparem-se porque não é nada do que vocês esperam e é tudo o que vocês precisam
📚eu participei da Curiosa Convida a convite da
e foi um papo delicioso que eu tô bastante feliz em dividir com vocês aqui (você pode ler e assistir nosso encontro)