numa das minhas sessões de terapia, conversávamos sobre adultecer porque, como boa millenial, me considero uma adulta assim como tomate é fruta. e eu sei que você também. nossos pais na nossa idade tinham isso e aquilo e blablabla e isso faz com que a gente se olhe no espelho e pense:
“quem foi o irresponsável que me deixou sem supervisão?”
naquele dia, saí da sessão disposta a parar com essa palhaçada. sentei no escritório para trabalhar, coloquei meu fone e botei a playlist “as 100 melhores músicas da Disney de todos os tempos”.
enquanto encarava com maturidade minhas inquietações, começou a tocar um grande clássico da minha adolescência e ouvi um Zac Efron super animado e dançante dizer para seus colegas revoltados com o trabalho de merda que ele arranjou para todos:
temos que nos esforçar para fazer dar certo
nós vamos ajeitar as coisas, o sol vai brilhar
se nos esforçarmos, não haverá dúvida
ainda podemos salvar nosso verão
comecei a rir pensando que essa é a essência da nossa geração. o trabalho está uma merda? como a gente deixa tudo mais gostoso, feliz e dançante para dar conta? geladeira com cerveja e kombucha? mesa de sinuca? decoração colorida para que essa galera bonita em clima de azaração não peça demissão?
por que diabos nós precisamos que tudo seja divertido? tem coisas que simplesmente não são e não ficarão. emitir nota fiscal, entrar no gov.br, pagar impostos, tentar resolver um BO num suporte feito exclusivamente por IA… não tem Zac Efron transportado dos anos 00 cantando um pop safado que deixe isso mais legal. ouso dizer que, caso fosse possível, no momento que ele aparecesse na minha frente, eu o mandaria, com todo respeito, tomar no cu.
eu mesma já disse por aqui que adultecer não é embrutecer. e continuo assinando embaixo, ok? mas se deu a entender que eu estava dizendo que tudo o que você faz não pode nunca te gerar incômodo, frustração, raiva, tédio, irritabilidade e vontade de sumir, me desculpa. eu contribuí para sua fantasia millenial de mundo perfeito.
nos falta raiva.
nós não sabemos lidar com ela. odiamos conflito, tentamos apaziguar, enxergar todos os lados, buscamos entender as motivações, a origem, a criação, os traumas… “deve ter uma razão para que ele seja um imenso idiota”. até a Malévola ganhou história triste para justificar maldade, gente!
segura minha mão enquanto você lê: você não é intolerante por não aceitar um tratamento medíocre ou cruel. você não é menos feminista porque a sua chefe é a própria filha do cão e você reconhece isso. sua vida não é ruim porque você precisa lidar com a burocracia irritante do nosso país e suportes cada vez mais burros e artificiais. você não tem que botar um cropped e reagir se a situação é absurda.
olha, eu sou uma otimista. eu acredito na humanidade, no amor, nas relações, no poder da troca, na beleza das coisas e que o mundo é, sim, um bom lugar. acredito que a maioria é boa e que existe solução para 99% dos nossos problemas. é só que às vezes a solução não é abaixar na altura do problema, olhar nos olhos dele e dizer “isso me magoa”. às vezes a solução é olhar nos olhos dele com fúria e dizer: “com a mesma força que eu te criei, eu te destruo. não brinca comigo”. eu apoio a educação positiva com crianças. e só.
o mundo é um lugar complicado e dual. pessoas ruins e grandes safadas existem. e elas podem não ter tido um passado difícil ou ter um laudo que justifique a atitude babaca que tiveram. elas podem simplesmente ser otárias.
e nós também podemos. eu babaquei, tu babacastes, nós babacamos. me considero uma boa pessoa, sei que crio boas coisas para o mundo, acredito na força do coletivo feminino e já me visualizei batendo com vontade numa garota infernal e debochada que dividia a casa comigo. só visualizei porque 4 amigas me seguraram e me fecharam no quarto quando parti pra cima dela com uma raiva bestial. tive minhas razões? sim. ela tinha as dela para ser péssima? talvez. considero as minhas mais justas? sim. mas, né? vai saber…
fato é que situações de merda são apenas situações de merda e não ficam mais agradáveis quando musicadas. pessoas escrotas são apenas pessoas escrotas e não ficam menos escrotas porque sofreram.
se algo na sua vida está precisando de enfeite, justificativa e firula para que você dê conta de sustentar, chegou a hora de ir embora. não vai ficar mais leve, mais gostoso ou mais fácil.
se algo não está leve ou fácil, mas faz parte de uma trajetória gostosa de construção de alguma coisa que você deseja muito, você vai precisar aceitar que o que a gente ama não é gostável o tempo todo.
a linha é tênue e nebulosa mesmo e às vezes me sinto cansada de tentar ver beleza onde simplesmente não existe. prefiro contemplá-la em seu habitat natural, onde ela realmente salta aos olhos. prefiro cultivar espaços para que a beleza verdadeira exista na minha vida, ao invés de me enganar maquiando situações, histórias e pessoas horrorosas.
no fim, acho que o segredo da tal vida adulta que a gente tá mais tentando entender do que viver é simplesmente aprender a amar a realidade¹.
pronto. agora solte os ombros, a mandíbula, o ar, coloque High School Musical pra tocar, dê um grito e vá viver! você e eu sabemos que vale a pena.
curadoria da semana
🎧nenhuma música resume tanto nossa conversa de hoje quanto essa do genial-maravilhoso-inigualável Stromae
🎬sábado de manhã eu vou guiar um processo de conexão com o desejo através do corpo e da escrita para mulheres que desejam parir suas criações, mas por alguma razão, não se autorizam. não será apenas um papo ou uma palestra. mesmo que online, vou guiar um processo prático e ficarei muito feliz em te encontrar por lá. 1. porque eu amo o que faço. 2. porque eu sei que vai te colocar em movimento. bora? inscreva-se aqui.
📚“romantizar sua vida é bonito. erotizá-la te transforma”, só o título desse texto já causou um reboliço interno aqui. ele inteiro me vitalizou!






Fantástico esse texto. Particularmente, eu gosto de ver as histórias de origem dos vilões pra tentar entender? justificar? de onde veio todo aquele mal. Mas tem razão, tem gente que é escrota apenas por ser, e a gente que tem que lidar com eles...