“a verdade é que eu queria ter mais tempo”,
digo pra minha analista enquanto revelo a mim mesma que apesar do desejo de ser mãe ser algo real, a ideia de que isso aconteça em breve me apavora.
eu finalmente sinto que cheguei a um lugar satisfatório profissionalmente. eu estou realizada com as possibilidades que se abrem, com as duas edições da Residência Criativa esse ano, as oportunidades de parcerias com mulheres fantásticas, o youtube monetizando, a newsletter crescendo… é como se eu sentisse que o carro pegou um pouquinho mais de velocidade, sabe?
“o que você está me dizendo é: como vou engravidar e me ausentar se a minha primeira filha ainda está dando os primeiros passos?”,
disse minha analista fazendo com que alguma coisa em mim fosse finalmente ouvida.
às vezes a voz do desejo se mistura com a do medo e você jura que a urgência que sente vem do primeiro. mas na verdade, quem está regendo suas ações como um maestro atrapalhado é o medo de que deixar para depois seja deixar para nunca mais.
como boa filha de Marte, eu sou uma grande entusiasta do agora. acredito que é um desperdício deixar a vida para depois quando o hoje já está aqui, vívido e palpável.
mas me tornar uma mulher me fez aprender a arte de tecer o tempo. como uma aranha paciente, trançar fios no hoje, colher os frutos no amanhã. e caso o vento ou uma mão desavisada desmancharem meu trabalho, respirar fundo e recomeçar. não ceder aos atravessamentos da vida, apenas lidar com eles.
não é porque aprendi que não me esqueço. falo português há mais ou menos 33 anos e vez ou outra chamo o microondas de aquele negócio que esquenta comida.
eu quero ser mãe, mas eu quero um pouco mais de tempo. mas tenho 35 anos e dizem que não tem mais disso que preciso disponível. mas (de novo) tem tanta coisa que ainda desejo viver e tanta coisa que ainda preciso fazer. dizem que é uma ilusão e que dá pra fazer tudo depois e eu acredito, mas também dizem que me ausentar da empresa enquanto ela ainda é um bebê é um tiro no pé. e também me disseram que eu poderia ser e ter tudo o que eu quisesse e eu acreditei sem ler as letras miúdas do tempo.
eu colocava apenas na conta do Lucas a resistência por trazer uma cria nossa ao mundo. “se fosse por mim, já tinha tido”, eu repetia. é bom ter a quem culpar, né? mas a verdade é que eu também sinto que talvez o agora não seja uma boa escolha. e eu sei que você que é mãe talvez pense que é uma ilusão eu tentar encontrar uma hora certa porque não existe isso de hora certa. eu concordo porque sou uma grande pregadora de que cenário ideal é meta, não condição. mas talvez exista um momento mais favorável e alinhado com meu desejo de ser, além de mãe do bebê, a co-fundadora da Desejante.
talvez (de novo) seja um ato de fé na Vida abrir mão do meu relógio amedrontado e apressado de Coelho da Alice e deixar que ela me conduza e me mostre o seu tempo em outro ritmo, alinhado com o mistério.
“tudo vai dar certo”, me disse uma voz serena e alegre enquanto eu tomava um banho quente depois da terapia. “continua o seu caminho, abra mão de saber. tudo já está acontecendo”. eu sempre confio na Velha quando ela fala. “o desejo movido pelo medo é o desespero”, ela coroa.
lembro de Sandman, onde desejo e desespero são irmãos gêmeos e finalmente entendo essa escolha. como é sutil o fio que entrelaça os sentimentos, né? por isso se faz tão necessário aguçar o faro.
não tenho respostas, só sei do que preciso e escolho me dar. sem a rigidez dos números e seus prazos. alguns meses? um ano? dois? três? não sei. só sei que no tempo da vida, o que anseia existir, nascerá.

“o chão é lava!”
eu gritava quando criança
que imaginava o perigo
“o desejo é lava!”
eu grito quando adulta
que teme a verdade
— poema tecido por mim no Clube de Escrita da Naíma Lorber

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curadoria da semana
🎧eu adoro os conteúdos da Luana Carvalho e descobri que ela tem um podcast com o nome perfeito de Bom Mesmo É Ser Emocionada
🎬esse vídeo do Senhorita Bira sobre coachs de investimento e a ilusão do primeiro milhão (preparem a carinha linda porque o tapa vem forte)
📚eu achei essa edição da Teimosa, da Luiza Lutz de uma beleza sem tamanho



Esse texto me fez pensar em quantas vezes confundi desejo com urgência. Talvez confiar no tempo da vida também seja uma forma de coragem.
Eu amei como você menciona “se tornar uma mulher”. Precioso demais isso ❤️