“a palavra obediência me apavora.
arrepia os pelos da nuca e desperta o bicho-raiva.
não nessa vida!
que nada nos prenda, nos limite, nos molde e nos cegue.
que a vida nos expanda, nos encante, nos bagunce e nos surpreenda.
assim se faça”
escrevi essa oração numa edição do ano passado. ela se faz e fará presente durante toda a minha existência.
ouvi de dois homens diferentes que o meu corpo era uma benção e uma maldição. ao mesmo tempo que me abriria portas, me faria refém. reduziria todo e qualquer potencial, talento ou inteligência à sua forma. seria alvo de desejo e fúria. “não deixe que te reduzam a ele”, me disseram.
passei a enxergá-lo como um segredo.
quando estávamos a sós, dançava nua pela casa, explorava suas curvas, o prazer engarrafado, o frio de seus pés e o calor de seu hálito. quando estávamos a sós, éramos grandes cúmplices.
antes de sair de casa, acorrentava a fera no calabouço para que não fizesse o estrago prometido por quem o via de fora.
passei a n o s guardando meu corpo como um segredo. tanto que, em algum ponto, me acostumei em mantê-lo em silêncio. até que uma pequena mulher de olhos cor de mel e uma intensidade feroz me contou que o único e verdadeiro segredo era que durante todos aqueles anos eu estava obedecendo ao deus errado.
— mas ele me prometeu que eu seria valorizada assim!
— e, no entanto, aqui está você. seja sincera: o que toda essa obediência te trouxe?
como uma tempestade, me arrebatou a verdade. foram anos buscando não despertar o desejo. do outro por mim, de mim pelo que é meu. foram anos mantendo a brasa acesa, mas nunca permitindo que a fogueira se formasse. foram anos, eu disse. a n o s.
portanto, não me importa de que cor se pinta o céu, eu nunca mais — me ouça bem aqui — nunca mais esconderei em calabouços e catacumbas a força, a fúria, o gozo e o desejo que me fazem mulher.
oi, . eu espero que esse texto te encontre bem. sei que ontem o dia foi tenso e que talvez você tenha pensado em perder as esperanças. mas deixa eu te dizer uma coisa: há anos você é uma mulher em um mundo que não está desenhado para você. e aí está você! sentindo, criando, lutando, gargalhando, gozando, chorando, vivendo, vivendo e vivendo. aí está você buscando se entender e se libertar, buscando aprender cada vez mais e ocupar cada vez mais espaços. aí está você, , atravessando todo e qualquer obstáculo.
não estou romantizando a mulher guerreira aqui, não. acho revoltante que tenhamos que sustentar tudo e tanto. o que estou dizendo é que apesar de todas as bizarrices que nosso mundo é capaz de produzir, nós estamos aqui.
o que desejo para mim e para você é que nunca nessa vida a gente perca a capacidade e a vontade de continuar v i v e n d o muito.
hoje te deixo com Maya. amanhã estarei embarcando para guiar mais uma Residência Criativa. sigo acreditando na necessidade de estarmos juntas ritualizando a criatividade e o desejo. sigo mesmo acreditando que esses pequenos coletivos tem uma importância fundamental para alimentar nossa crença e nosso desejo de criar uma realidade com a nossa cara. e quando eu digo isso, eu quero dizer: mais mulheres no poder. e como escreveu Jéssica Petit: “por um congresso que pare de instrumentalizar mulheres e passe a enxergar mulheres e crianças como de fato somos: gente.”
continuemos atentas, fortes e desejantes.
curadoria da semana
🎧pra te energizar e lembrar que o feitiço é você quem lança
🎬essa performance da mulher que me ensinou a ritualizar o corpo
📚o texto de hoje foi inspirado no trabalho que venho fazendo em mentoria com a Sheyla Smanioto. tem sido uma delícia e um caos olhar nos olhos da fera enfurecida e criativa que mora em mim. Sheyla é autora de um dos livros que mais me impactou (e também inspira esse texto), o meu corpo ainda quente e também é a convidada do mês na Comunidade Desejante! o encontro Desperte a Fera falará sobre o processo criativo e como nos relacionamos com a energia criadora que nos atravessa. para participar, venha fazer parte do nosso círculo de desejo e criação. você confere os planos e toda programação do semestre aqui:
com coragem e desejo,
Yna





Li enquanto tomava um café para começar o dia. Hoje é um dos dois dias da semana que atendo gratuitamente mulheres tão ímpares. Acolho suas histórias, ouço-as cantas seus lamentos, seus traumas, seus sonhos. São dias de corte e bordados, pois é preciso fazer borda, dar contorno. Precisamos continuar falando, e assim nos reencontramos com aquela parte que, graças, insiste em desejar.
Então vamos cada uma de nós continuar nosso trabalho, nosso caminho. É no caminhar que nos encontramos, nos mais diversos meios.
Assim como no vídeo, vamos reunir arco-íris e sermos também. Obrigada.