não sou tão útil quanto me imaginava
e eu nem quero ser...
— para de olhar no retrovisor!
— mas eu tenho medo! e se o carro descer e bater no de trás?
— você não tem que se preocupar com quem vem atrás de você. a pessoa vai ver o que você vai fazer e vai desviar, se for preciso.
esse diálogo foi suficiente pra eu perder o medo de dirigir e repensar toda a minha existência.
eu tinha tanto medo de bater no carro de trás que minhas mãos suavam, minha respiração ficava curta e meu coração acelerava todas as vezes que eu pegava no volante. meus olhos só não fixavam completamente no retrovisor porque eu sabia que precisava prestar atenção no que estava a minha frente. mas sabia com o cérebro. com o medo, eu sabia outra coisa.
naquele dia que eu e Lucas tivemos aquele diálogo, eu percebi que não era só o carro que eu dirigia assim. eu tinha o péssimo hábito de limitar meus movimentos e minhas escolhas com medo de um pequeno erro atrapalhar todo o trânsito. quanta prepotência! não acha? hoje, olhando de fora, acho engraçado como nos colocamos no centro do mundo tão facilmente…
eu não confiava que a pessoa dirigindo o carro atrás de mim fosse esperta e atenta o suficiente para proteger a si mesma do meu descuido. eu deveria protegê-la de mim e proteger a mim mesma de todo o resto. eu, uma única mulher de 1,70 que, por mais que seja considerada uma altura acima da média para mulheres, é completamente insuficiente para sustentar o peso de todos os erros.
eu não sou tão útil quanto me imaginava.
E EU NEM QUERO SER!
não quero viver olhando o retrovisor como se pudesse proteger as pessoas dos efeitos colaterais da minha existência. não quero ter medo de seguir em frente por uma promessa inconsciente de ser tão responsável pelo que nem me diz respeito.
eu só quero olhar pra o que se apresenta à minha frente na estrada e, cuidadosamente, percorrer o meu caminho. no meu tempo. com todos os meus erros.
esses dias, fui tentar estacionar e não estava conseguindo. um cara sai de dentro do café que eu esperava entrar e me guia para que eu não batesse nos dois carros que limitavam minha vaga. quando fui sair, não conseguia ver se estava muito perto do carro vermelho a minha direita ou não. uma mulher que passava na calçada veio me ajudar. quando consegui sair da vaga, ao tentar manobrar no meio da rua, meu carro morreu. os outros carros pacientemente esperaram meu idosinho ressuscitar.
saí com a sensação de que eu realmente não preciso dar conta de tudo. e me lembrei da frase de Blanche Dubois em Um Bonde Chamado Desejo: “eu sempre dependi da gentileza de estranhos”. todos nós, Blanche!
estamos emaranhados uns aos outros e se nos preocuparmos menos em sairmos ilesos aos encontros, perderemos o medo da vida como eu perdi o medo de dirigir.
“pare de olhar no retrovisor! tem um caminho bonito acontecendo à sua frente e ele depende da sua atenção para fluir”, disse a Velha que me guia.
eu espero, de coração, que essas palavras também te transformem.
às vezes, tudo o que a gente precisa para desapegar de velhos hábitos é um pequeno conjunto de palavras, às vezes é estar com pessoas que nos permitam existir como quem somos. um espaço onde nos despimos de qualquer exigência de performance e abrimos o poder da fala e da escuta.
e de 17 a 21 de Abril, eu te convido a se dar de presente um momento de ser cuidada, ouvida e acolhida num lugar paradisíaco, com comida deliciosa e práticas divertidas e profundas na mesma medida. tô falando da Residência Criativa na Praia dos Carneiros! temos apenas 7 vagas e estamos na condição especial de pré-venda. acesse aqui para conhecer e se inscrever.
🎧essa música me faz sentir uma imensidão de coisas (está na minha cena preferida de um dos meus filmes preferidos e já indicados aqui, Nove Dias)
🎬esse texto foi escrito logo depois que eu assisti Sonhos de Trem, na Netflix. fiquei inspirada, tocada e profundamente encantada. a belíssima fotografia é do brasileiro indicado ao Oscar, Adolpho Veloso
📚essa news da camila bindel traduz muito das minhas inquietações atuais com a espiritualidade e o caminho que busco cada dia mais seguir





Yna, já tinha ouvido esta tua partilha num episódio do podcast e super me identifiquei. Quando comecei as minhas aulas de condução, só tinha medo de atrapalhar a vida dos outros... E é um grande insight para a forma como estamos conduzindo a nossa vida. Grata pelo texto, que super complementou (e aprofundou) a tua partilha prévia. ❤️🔥
Mulher, mais uma vez: que texto. Veio como um abraço e um lembrete firme e gentil. Obrigada (por isso e por tanto!)