monstros não existem
a crueldade das pessoas comuns
alerta: esse texto é sobre um assunto pesado e triste. se você estiver num dia desesperançoso, sugiro que leia em outra oportunidade. eu senti de trazer pra cá porque acredito que pode colaborar para uma reflexão importante e necessária. já agradeço quem for até o fim. muito grata por me ajudar a organizar o que me atravessa.
era terça-feira à noite. eu e Lucas tínhamos assistido um episódio de Game of Thrones (tô assistindo pela primeira vez, acredita?) e depois abrimos o youtube. contrariando as recomendações de higiene do sono, nossas noites são todas assim. às vezes vemos um episódio do canal Outras Áreas, às vezes do Via Infinda, depois os resumos políticos do Samuel Borelli e estamos prontos para dormir.
mas nessa última terça-feira, ao abrir o aplicativo o primeiro vídeo que apareceu foi do canal sensacionalista Cidade Alerta. isso nunca acontece. estava pronta para fazer uma piada com o Lucas quando li o nome que estava estampado na manchete e quase gritei: “eu conheço ele!!!”
coloquei as duas mãos na boca, como fazemos involuntariamente diante do espanto. e assim fiquei durante todos os minutos do vídeo. completamente estarrecida, indignada, confusa… tudo ficou mais real quando a matéria mostrou as cenas do julgamento inicial e eu ouvi sua voz.
é muito estranho e perturbador perceber que durante um tempo da minha vida eu convivi com um pedófilo. Marco Furlan, o ator que foi preso por estuprar uma criança de 5 anos foi meu colega de turma de artes cênicas.
(meu deus, é tão estranho escrever isso…)
nós convivemos por um tempo e as lembranças que tenho são todas boas. lembro que ele me irritava um pouco às vezes, mas a maioria das pessoas me irritou em algum momento, como eu devo ter irritado a maioria delas também. um bando de gente jovem e ambiciosa sonhando em viver de arte e jurando que foi escolhido por Dionísio convivendo de segunda a sexta (e finais de semana de peças e festas) por 3 anos… se não saiu um barraco, você não viveu direito essa fase.
(tento colocar uma dose de humor porque.)
Marco não era um grande amigo. nos vimos poucas vezes depois que ele saiu da turma (não me lembro o motivo, mas ele não se formou com a gente) e não nos falávamos há o quê? uns 13 anos? possível… mas mesmo assim, faz dias que me sinto atrapalhada com essa notícia.
veja bem, eu sei que essa história não é sobre mim. mas se tornou parte da minha história o fato de que eu convivi com um pedófilo. e eu te confesso que é muito difícil atribuir esse título a ele. parece que não encaixa.
e não é pelo fato de ele ser um cara bonito, branco, de olhos azuis porque já conheci alguns dessa espécie que foram terríveis e estou lúcida o suficiente para saber que brancura e olho claro não definem bom caráter.
mas é porque ele era um cara absolutamente normal, sabe?
e eu me lembro de todos os caras normais que foram inconvenientes comigo. todos. lembro de todos os olhares nojentos, todas as passadas de mão, todas as brincadeiras escrotas e ultrapassadas de limite. não lembro de nenhuma dessas coisas vindas do Marco.
isso não me faz defendê-lo e acreditar em sua inocência porque eu não acredito. tudo aconteceu muito às claras e ele foi pego em flagrante. e mesmo que não fosse, eu acreditaria na palavra da criança.
isso me faz simplesmente encarar a realidade estarrecedora de que nós não conhecemos realmente as pessoas.
uma amiga me disse que quer que ele morra. e eu juro que sempre que vejo casos como esse, não me importo em absoluto com o sofrimento ou com o destino do réu. para mim, que se exploda! mas não consigo desejar a morte dele. não consigo ter o mesmo sentimento de indiferença e isso está mexendo muito comigo.
nós não éramos amigos! ele nunca foi uma pessoa importante pra mim! porque tá tão estranho e dolorido enxergá-lo como algoz?
porque é admitir que por algum momento eu estava ali e não vi nada estranho. é perceber o tamanho da nossa ignorância e o quanto corremos riscos o tempo todo. e o principal: é finalmente entender que esses homens não são monstros. eles são pessoas absurdamente comuns.
eu sabia disso. mas não sabia, entende? eu só tinha a teoria que sempre fez muito sentido e que eu sempre defendi. mas agora eu sei na prática.
conheci muitos homens abusivos na minha vida e nunca me surpreendi quando descobria quem eles eram de fato. porque, infelizmente, nenhuma mulher se surpreende quando descobre que um homem foi violento.
e me dói perceber que se o Marco tivesse sido acusado de bater numa mulher eu não teria ficado tão assustada. me dói porque percebo que a violência contra a mulher está tão normalizada no nosso imaginário que nem espanta.
mas a pedofilia nos tira do eixo.
que tipo de pessoa é capaz disso? como elas carregam esse segredo tão bem? como elas conseguem se camuflar naturalmente em sociedade e nos fazer acreditar em sua bondade?
não são monstros.
não são pessoas esquisitas como nos filmes.
são homens comuns.
quão assustador é isso?
eu sinto muito por trazer um assunto desses pra você numa segunda-feira de manhã. mas esse é um espaço onde compartilho o que está atravessado a minha alma para que, de alguma forma, as palavras me ajudem a organizar a bagunça interna. se você me leu até aqui, te agradeço. tem sido importante ventar sobre esse assunto para diminuir o nó na garganta.
sigo acreditando na beleza do mundo,
sigo acreditando na bondade dos homens (o gênero mesmo).
a maioria é boa, como minha mãe sempre me disse.
mas onde há luz, há sombra.
desejo do fundo do meu coração e com todas as minhas forças que a criança fique bem. desejo amor para ela e para seus pais. desejo que essa atrocidade não apague neles a beleza, a fé e a vontade de viver.
a você que me lê, desejo o mesmo: que você siga acreditando na beleza e na bondade porque elas existem tanto quando a violência e a dor. nosso mundo é dual, polar e vamos conviver com as duas faces de todas as moedas. por isso, ele precisa de pessoas comprometidas com alimentar a luz.
aqui eu sempre digo que mulher feliz é revolucionário porque num mundo que insiste em nos ter nas estatísticas de dor, nossa boa vida é, sim, uma revolução. sigamos revolucionárias, minhas amigas. eu sei que às vezes é difícil, mas chore, grite e continue.
vocês nunca me verão sucumbir à desgraça.
e eu espero ter vocês ao meu lado nesse caminho.
curadoria da semana
para te lembrar que a vida também é bonita
🎧minha música preferida do álbum novo da Anitta porque me dá vontade de dançar até o corpo dizer chega
🎬há duas semanas, guiamos a Residência Criativa da Chapada dos Veadeiros e fizemos esse vídeo lindo pra mostrar pra vocês como foi
📚eu me diverti demais com essa edição da Fica entre nós, da Ju Pires




Infelizmente te entendo. Aqui na minha região aconteceram dois casos escandalosos de pedofilia e, em ambos, eu conhecia os agressores. Eram pessoas comuns, do convívio de muita gente. Cheguei a frequentar casa deles, sentar à mesma mesa para refeições. E então, embora eu saiba das atrocidades e deseje justiça, ao mesmo tempo fico incrédulo porque ninguém percebeu nada de errado (nem mesmo eu). No fim das contas, a gente se choca com a própria ignorância.