por duas vezes, escapei da morte. uma delas quando peguei escarlatina, outra quando peguei meningite. em ambas eu tinha menos de 7 anos.
quando a Luiza Lutz fez meu Mapa Rúnico, ela me disse que a letra Y que inicia meu nome pode significar uma relação próxima com a morte. justamente por isso, talvez aconteça da pessoa não temê-la.
eu não tenho medo da morte. e apesar de ter perdido meus avós todos e minha cachorrinha, ainda tenho medo do vazio que ela deixa em quem fica. porque quando a morte é justificada (todos os citados eram idosos), ela me dói, mas não me quebra. quando ela vem inesperada para quem ainda poderia desfrutar dessa Terra por longos anos, ela me faz perder o chão.
ainda assim, é um sentimento seco, bruto, sério. muito diferente do drama delicioso ao qual eu me entregava sem dó quando sofria de amor. porque o amor, mesmo quando dói, transborda, fertiliza, nos lembra que estamos vivas e que viver é sentir até o talo.
eu desisti de tentar entender a vida. resolvi estar atenta para vê-la acontecer através dos sentimentos, meus e dos outros. perceber como ela movimenta dores, desejos, corpos e vozes me encanta. na verdade, sempre me encantou porque eu escolhi ser atriz para entender como é ser gente e sentir todas as coisas. até as que eu não sinto.
um tempinho atrás, fiquei obcecada pelo novo álbum da Hayley Williams. calma que vai fazer sentido. eu não acompanhava Paramore porque não fui a adolescente emo. eu era a hippie que ouvia Armandinho e vendia pulseirinhas de macramê. então quando vi a Hayley pela primeira vez, minha reação foi: “que linda! que música chata!”.
corta para 2026 e o Tiktok (sempre ele) me manda cortes de shows dela cantando uma música chamada Good Ol’ Days numa roupa estranhamente cool e belíssima como uma deusa. fiquei hipnotizada! comecei a ler os comentários e percebi que tinha algo que amo por trás desse novo álbum: uma boa e suculenta fofoca.
pega o café: diz que Hayley tinha um teretetê com Taylor, seu colega de banda. diz que ela casou com outro (não entendi bem o motivo), mas que eles continuavam se pegando no sigilo-não-tão-sigiloso porque aparentemente todos os fãs sabiam e torciam para que os dois ficassem juntos. bom, em algum momento eles realmente ficaram! durou uns 6 anos e acabou recentemente. ou não acabou já que não houve anúncio oficial, mas houve o novo álbum da Hayley…
“você estava no meu casamento, eu estava destruída, você estava bêbado
você poderia ter me dito para não casar, eu teria fugido
me diga, qual foi o momento em que você decidiu desistir?
você poderia ter me dito o que queria, eu teria feito, eu teria feito
qualquer coisa”trecho de Parachute
tirando a fofoca de lado, a coisa que mais me fascinou nos vídeos da Hayley cantando esse trecho específico foi a maneira como seu sentimento foi mudando com o tempo.
os primeiros eram doloridíssimos. aos poucos, a raiva e a revolta surgiram. depois, a indiferença. no pasava nada em seus olhos. eu não pulava um vídeo que aparecesse porque era delicioso assistir uma mulher sentindo. como boa ariana, essa é a minha versão preferida por ser a mais dramática.
um ps: existe uma diferença entre drama e tragédia: o drama é vívido, transbordante, exibido. a tragédia, tal qual a morte, é inevitável e brutal.
um pouco depois, dei play no novo álbum da Raye e ouvi outra mulher de coração partido sangrar sua dor através das palavras:
e, na verdade, esta noite ela confirmou
o frio nunca dura para sempre, meu bem
ele apenas ensina o coração a queimartrecho de Click Clack Symphony
e eu fiquei pensando no quanto as mulheres e os homens fora da heteronormatividade foram chamados de dramáticos ou exagerados por simplesmente entrarem em contato com seus sentimentos e aprenderem a alquimizá-los a olhos nus.
o quanto tentam nos anestesiar os sentidos aceitemos viver como aqueles que rolam num gramado segurando o joelho como se estivessem sendo atacados por ursos pardos raivosos, mas na verdade é só para distrair o juiz e atrasar o jogo.
distrair o ego e atrasar a vida.
nada disso me interessa.
me interessa ver uma mulher escrever e cantar uma música que ela achará cafona anos depois quando a dor não for mais latente. me interessa vê-la chorar de raiva hoje para chorar de rir amanhã.
me interessa ser exatamente como todas as garotas se ser uma garota significa ser profundamente afetada pela vida.
que delícia!
dia 19/09 das 9h30 às 11h30 eu vou guiar o Território de Criação Online, uma imersão para as afetadas e transbordantes aprenderem a transformar TANTO em ALGO. um espaço para acolher o medo e ativar a coragem de agir a partir do desejo. vamos nos conectar com o corpo e criar a partir da escrita. vai ser gostoso, viu? estou super animada! a inscrição tem um preço super simbólico de R$33 para selar nosso comprometimento. você se inscreve aqui:
curadoria da semana
🎧eu não sou religiosa, vocês sabem. mas essa música me deixou aos prantos (não é louvor, gente. não fui tão longe.)
🎬pensando em mulheres que sentem, Midsommar. esse filme ressoará em mim eternamente (e eu AMO a Florence Pugh!)
📚li essa edição maravilhosa da Melissa de Sá que complementa lindamente o que falamos hoje




