já que não sou herdeira, eu quero ser bancada
eis o maior fetiche da vida adulta
uma vez eu ouvi que o que você responde pra essa pergunta é o seu verdadeiro propósito: se a preocupação não fosse o dinheiro, o que você estaria fazendo? na hora, respondi num suspiro cansado: nossa! nada!
eu estava num ano desafiador, tendo que lidar com altos e baixos emocionais na minha vida particular e com a pressão diária que é empreender e criar conteúdo. foi inclusive nessa época que escrevi esse texto que foi muito popular por aqui.
eu estava cansada de ser a única responsável por mim. eu não tinha vontade de fazer nada e toda tpm fantasiava com a ideia de 1. ganhar na loteria sem jogar e sumir no mundo, 2. meu companheiro ficar milionário e me bancar.
sim, senhoras e senhores, euzinha alimentei essa ideia internamente por longos meses. imaginava direitinho como minha vida seria mais gostosa se o Lucas fosse o único responsável pelas contas e me desse um cartão ilimitado para eu viajar e comprar minhas coisinhas sem fazer continhas.
essa semana, vi no instagram um vídeo da Astrid Lacerda falando sobre essa fantasia que tem sido sonhada por muitas jovens mulheres e alimentada por influencers que propagam o estilo de vida das Tradwives (ou “esposas tradicionais”) em seus conteúdos — falo um pouco mais sobre esse movimento aqui.
Astrid desenvolve um raciocínio lúcido a partir do livro Neoliberalismo Como Gestão do Sofrimento Psíquico, de Vladimir Safatle. “o que você acredita que quer, nada mais é do que o fetiche de todo adulto: segurança e não precisar trabalhar”, ela diz enquanto nos mostra que estamos todos nos sentindo exaustos de tentar manter uma estabilidade num sistema criado para nos manter em insegurança.
a versão romantizada de redes sociais mostra mulheres ricas em suas casas maravilhosas, com suas roupas belíssimas cozinhando pratos elaborados com ingredientes frescos da horta bem cuidada de seu jardim.
e de repente você se pega sonhando com uma casa igual e com essa paz de espírito de quem, aparentemente, não precisa pagar um boleto sequer.
mas não existe paz em ser uma dona de casa. minha avó uma vez me disse: “era melhor eu ter continuado trabalhando em casa de família (do que ter casado). pelo menos eu tinha folga e décimo terceiro”.


nós só queremos um pouco de tempo para existir em paz.
mas a saída não está em romantizar uma realidade que dá tanto trabalho quanto a de quem cumpre uma escala 6x1 com hora-extra. sem contar as possíveis violências que muitas mulheres sofrem dentro de suas casas e das quais não conseguem escapar por não terem autonomia financeira ou rede de apoio. nós não podemos ignorar os dados da realidade.
ao mesmo tempo, sinto que preciso pontuar uma coisa. eu conheço de perto mulheres maravilhosas que tem como trabalho o lar e o cuidado com os filhos por escolha e ao lado delas, estão bons companheiros que as valorizam.
não existe problema algum em escolher o lar como profissão. o problema está em comprar uma fantasia de feminilidade que promete retirar de seus ombros o peso da responsabilidade de administrar sua vida.
a verdadeira solução é reconstruirmos o sistema que nossa sociedade opera e que está adoecendo a mente e o corpo das pessoas cada vez mais. mas eu sei… essa é uma mudança a longo prazo.
então como podemos nos articular para trazer caminhos verdadeiramente possíveis de vivenciarmos um pouco de paz em existir?
eu acredito que o primeiro passo seja entender a realidade, mas não nos afogarmos nela. se ficarmos apenas repetindo as feiuras de existir nesse mundo, nos tornaremos o tipo de pessoa que acredita que a humanidade não tem salvação.
eu não sou assim. acredito nas pessoas, no amor, na beleza do mundo, na bondade, nas relações… e apesar de ter perdido a ânsia de mudar o mundo inteiro, eu tenho muita convicção de que podemos mudar muita coisa ao nosso redor.
a saída imediata, ao meu ver, é pensarmos em injetar doses de prazer, descanso e silêncio na nossa rotina atribulada. e antes que você me fale que isso é impossível, lembre-se de que a obediência nos levou ao adoecimento. não enxergar uma saída faz parte da estratégia de quem não deseja que a gente escape.
quinze minutos de um cochilo depois do almoço, dez minutos de meditação todas as manhãs, vinte minutos de leitura antes de dormir, oito minutos embaixo de um chuveiro quente em silêncio.
precisamos existir nas brechas do tempo. podemos suspendê-lo e transformar minutos em horas, pelo menos em sensação. porque, minha cara, o tempo não existe e a vida real é muito mais mágica do que essa engrenagem sem cor que insistimos em alimentar.
estamos cansadas de habitar uma realidade seca de insegurança e dor. precisamos voltar a arar nosso território interno, regar sentimentos que esquecemos o nome, plantar desejos e colher realizações.
a vida é uma experiência grandiosa o suficiente. não vamos deixar que discursos fantasiosos nos distanciem do nosso poder de criar, manusear, intencionar e direcionar nosso caminho.
a única saída é voltar a sentir a vida. o resto é prisão.
vamos abrir brechas no tempo e regar com prazer, criatividade, magia e afeto o seu território interno nos eventos presenciais da Desejante esse ano. e como nosso maior intento é te ver vivendo seus desejos, a escolha de como viver a experiência é sua:
Uma viagem para suspender o tempo: Residência Criativa na Chapada dos Veadeiros (29/07 a 02/08) → 5 dias convivendo com a força e a beleza da natureza entre mulheres com sede de vida (30% das vagas preenchidas)
Um respiro na rotina: Território de Criação em SP (30/05) → um dia inteiro para dar nome, corpo e voz o que se sente (50% das vagas preenchidas)
curadoria da semana
🎧vi essa diva perfeita defendendo Los Hermanos e eu realmente não consigo entender quem fala mal das músicas deles. eles são os pais do esquerdomacho? sim. mas não dá pra negar a poesia. aqui minha preferida (todas as do Rodrigo Amarante, basicamente).
🎬para ilustrar o tema da news de hoje, o filme “Não Se Preocupe, Querida”
📚“o desejo masculino é covarde”, por Maíra Ferreira (me fez gritar de satisfação quando terminei de ler)





Agora sim, texto completo lido e, minha nossa. Que preciosidade e que fundamental. "não enxergar uma saída faz parte da estratégia de quem não deseja que a gente escape." SIM.
Obrigada por ser porta-voz de desejo permeado por tanta lucidez
MENTIRA. Eu nem saí do primeiro parágrafo ainda, porque gargalhei sozinha que nós duas usamos a mesma frase nos nossos textos de hoje (peraí que agora vou terminar de ler)