faminta e sedenta por abocanhar a vida
queimando antigas versões
dia desses tive um sonho curioso.
meu deck de tarot queimava sozinho. mas não era um fogaréu. era lento, de dentro pra fora. sabe quando você queima um papel e as margens ficam brilhantes por conta fogo que vai consumindo aos pouquinhos o que tem ali? foi assim. eu ficava nervosa de ver meu deck se desfazendo, ao mesmo tempo que aquele brilho me fascinava.
quando acordei, a primeira coisa que passou pela minha mente foi: preciso comprar um deck novo. pode parecer engraçado e até uma boa desculpa, mas a verdade é que eu ganhei meu deck de uma grande amiga. foi ela quem me iniciou no tarot e me explicou pacientemente o que dizia cada carta. esse deck foi dela até que ela sentisse que não era mais e passou adiante. o que eu senti (e ouvi) foi que era chegada a hora de eu encontrar o meu deck, aquele que melhor traduzisse a minha voz e intuição.
nesses 34 anos de vida, sinto que descobri muitas coisas sobre mim. mas também percebo o quanto tentei manter muitas delas encarceradas. não quero ser cruel comigo, sei que não fazia por mal. fazia por medo e imaturidade. fazia porque precisei — e preciso — saber lidar com as coisas aos poucos, abrir espaços para que elas se apresentassem divagar, sem que eu me assustasse e jogasse a chave de sua cela fora. e penso que seguirei nesse ritmo pelo resto da vida, descascando camadas num ritmo possível e generoso.
agora é chegada a hora de não só abrir espaços, mas dar voz a quem me torno. a mulher que me encara no espelho me conta que tem muito a dizer. ela não é dócil, mas também não é nada bruta. é bruxa e também mundana, de carne e osso. ainda um pouco exigente consigo, mas bem mais generosa do que um dia foi. adulta, mas muito mais leve. ela está faminta e sedenta por abocanhar a vida. ri com uma leve impaciência dos meus lamentos: “o que você está fazendo aí ainda? a gente não precisa mais disso!”.
ela queimou meu deck, afiou minhas palavras, avolumou aos meus cachos, ajustou o meu olhar e me disse: “bem-vinda à sua nova pele. é normal que você se sinta um pouco frágil e assustada agora. mas você conseguiu. você atravessou.”
foi o desejo quem me trouxe aqui. aquela pulsão no centro do corpo que nos move sem que sintamos que temos escolha. ele te tira do eixo e te revira do avesso pra te colocar onde você precisa estar. o desejo nos move e nos conta quem somos. às vezes não queremos ver, sabe? porque nunca ele nos diz o que você queremos. ele te revela a si mesma. e quando você se vê inteira, sem interferências, expectativas ou regras, é natural que você queira correr de si. porque você sabe que existir exatamente como se é gera efeitos colaterais.
e é pra isso que estamos aqui. para assumir e honrar os efeitos colaterais de ser exatamente quem somos. o desejo como combustível. a coragem como guia. o prazer como norte.
a travessia do desejo resgata a coragem de expressarmos nossa voz. nós não somos ventríloquos. também não somos apenas vítimas ou definidas por nossas dores e dificuldades. nós somos uma grande Força. cada voz interna tem sua própria identidade e juntas harmonizam na mais bela música já ouvida. nós precisamos de todas elas. nós precisamos que cada uma se expresse exatamente como é. soe como soe. mais doce, mais ácida, mais poética, mais prática, mais pop, mais cult, mais apressada, mais prolixa. há dias e dias. mas que haja sempre um espaço aberto para que todas digam o que precisam.
a Desejante é o espaço abri para que todas as múltiplas facetas de mim pudessem se expressar. abro essa porta pra você com vontade, pedindo só para que tire os sapatos e respeite as palavras.
esse é nosso caldeirão. aqui o feitiço é criado.
está feito.
esse texto foi originalmente escrito há um bom tempo e estava aqui, descansando nos meus rascunhos. senti de trazê-lo por dois motivos. primeiro porque gostei dele. segundo porque depois de viver intensamente dois dias deliciosos de carnaval, vivi dias um tanto tensos lidando com a saúde do meu pai (que já está ótimo) e a passagem de uma das minhas tias.
a vida e seu sabor agridoce…
ainda não consegui decantar e escrever algo novo, mas não queria ficar mais uma semana sem nosso encontro.
curadoria da semana
🎧esse episódio do podcast Segredos de Liquidificador da Tarcila Tanhã é uma das coisas mais bonitas que eu já ouvi
🎬amanhã teremos Clube do Filme na minha comunidade e falaremos de Pobres Criaturas — e eu recomendo fortemente se você ainda não assistiu (e caso tenha ficado interessada em saber mais sobre a comunidade, me aguarde que venho com novidades em breve)
📚o fim da mulher de boa, texto delicioso da Isadora Arraes




