ela nunca esteve tão saudável!
bodyshaming ou déjà-vu? a magreza extrema está de volta e é melhor a gente ficar bem quietinha sobre isso.
estávamos na praia, eu e mais três mulheres sentadas numa canga compartilhada. eu cheguei depois e o assunto já estava rolando. quando isso acontece, costumo ficar mais quieta, observando, antes de colocar minhas opiniões. o protagonista da conversa era ele, o milagroso Mounjaro.
enquanto as ouvia, meu pensamento voou e pousou numa terra interna que eu tento não habitar nessas horas para ser uma boa companhia de pipipi popopó, mas é mais forte que eu. uma coisa que aprendi para não ser uma completa desagradável é guardar pra mim as reflexões provindas da terra Militância.
dessa vez, percebi que o meu incômodo veio da quantidade de tempo que o desejo por um corpo magro protagonizou a conversa.
num dado momento, um vendedor de empanadas passou e foi dispensado sem nem mostrar seu produto. fiquei por uns segundos pensando no quanto eu queria aquela empanada. eu estava com fome e eu amo empanada! levantei e fui atrás do vendedor. ele não tinha a de queijo e cebola, que é minha preferida, mas a de frango estava deliciosa.
“nada tem um gosto tão bom quanto se sentir magra”
foi o que disse a modelo Kate Moss em uma entrevista em 2009. esse foi também o ano que eu saí do interior para ser atriz em São Paulo e muito rapidamente fui contratada por uma das maiores agências do país com uma única exigência: emagrecer 5kg.
“você quer ser a amiga gorda da protagonista ou a protagonista?” e “se na próxima você não tiver perdido essa gordura, eu vou agendar uma lipoaspiração” foram algumas das frases que eu ouvi da minha agente.
essa era eu em 2009, aos 18 anos. fazia meses que eu comia 700 calorias por dia contadas obsessivamente e passava mais de 2h na academia. enquanto me trocava para tirar essas fotos, a figurinista me disse: “atriz não precisa ser magra, né?” enquanto encarava meu corpo seminu.
eu saí do estúdio a pé, caminhei até o Bob’s mais próximo, comprei um milkshake de ovomaltine médio e fui tomando e chorando pra casa.
ali, naquele momento, comecei a viver um quadro de compulsão alimentar, bulimia e depressão que deixou sequelas por anos no meu corpo e na minha mente.
mas essa não é só a minha história. é a de muitas amigas e de outras tantas mulheres que não conheço. é também a história da minha avó que tomava vinagre para afinar a cintura nos anos 50 porque diziam que mulher de cintura larga não era mais virgem. é a da minha mãe sofrendo com os sintomas da menopausa que dificultam o emagrecimento e favorecem o acúmulo de gordura.
e mais do que isso: essa é a história de uma sociedade feita para silenciar, apequenar, fragilizar e adoecer mulheres.
desde o ano passado, acompanho Ariana Grande por causa do papel dela como Glinda em Wicked — o meu musical preferido. fui vendo como ela e Cynthia Erivo, sua companheira de elenco (e dona de uma das vozes mais lindas que eu já ouvi), estavam emagrecendo mais e mais a cada entrevista.
inclusive, gravei esse episódio de podcast na época e recebi muitas críticas por estar comentando sobre o corpo de outras mulheres. me acusaram de fazer com elas o mesmo que o patriarcado faz e me disseram que eu estava contribuindo para a desunião feminina.
tudo porque eu disse que a infantilização e fragilização femininas são um projeto de dominação patriarcal.
corta para 2026.
Ariana está em turnê depois de anos distante do palco. assisti algumas cenas pelo tiktok e a única coisa que senti foi tristeza. ela não tem fôlego para cantar e dançar e suas pernas tremem em cima dos saltos gigantescos. não é falta de equilíbrio ou prática, essa mulher costumava ser um furação no palco. mas ela não tem mais força…


bodyshaming ou déjà-vu?
bodyshaming: ato de ridicularizar, criticar ou humilhar alguém por sua aparência física.
todas as mulheres que tentam alertar sobre o fato de que os tapetes vermelhos estão povoados de mulheres adoecidas são acusadas de invejosas ou de provocarem a violência que criticam.
porque todas as mulheres lúcidas sempre serão punidas com estigmas que as façam parecer cruéis ou malucas. não é interessante que sejamos ouvidas e compreendidas acabando, assim, com todo o esquema de dominação cuidadosamente implantado por quem precisa da nossa obediência.
preste atenção: sempre que as mulheres começam a ganhar domínio de si, uma nova onda conservadora surge para diminuir nossa força. e isso começa no nosso corpo.
anos 20: logo depois das sufragistas conquistarem o direito ao voto para mulheres, surgem as primeiras balanças de uso doméstico
anos 60: em meio à libertação sexual na segunda onda feminina, surge a modelo Twiggy como símbolo de beleza (magérrima e infantilizada)
anos 90/00: enquanto as mulheres avançavam profissionalmente, ocupando cargos executivos e de influência, a moda se torna o heroine chic
novos anos 20: depois de uma nova grande onda feminista e do avanço das pautas progressistas, aqui estamos nós de novo…
com ossos frágeis e músculos enfraquecidos não é possível lutar por coisa alguma. com o estômago doendo de fome, não somos capazes de formular um pensamento crítico e elaborar estratégias sofisticadas para não cair nas armadilhas de quem deseja nos silenciar.
enquanto nossos corpos forem moeda valiosa para a perpetuação desse sistema que se prova cruel todos os dias, continuaremos sendo manipuladas a acreditar que o nosso valor está atrelado única e exclusivamente à estética.
aos 18 anos, meu valor como atriz estava na gordurinha acumulada na dobra das minhas axilas e na pochetinha abaixo do umbigo. meu talento, minha competência e meu profissionalismo não eram discutidos, quiçá percebidos.
há anos eu vivo com as sequelas emocionais de achar que meu corpo tem alguma espécie de falha porque minha barriga não é chapada e algumas celulites habitam meus glúteos. nunca, leia bem, NUNCA eu comi um doce e me senti 100% bem. sempre existiu uma voz que me diz que eu não deveria estar fazendo isso. eu aprendi a não dar ouvidos, mas seria muito melhor se ela nunca tivesse existido.
não é bodyshaming alertar as novas gerações que esse é um buraco fundo e dificílimo de sair. mas é claro que vão reforçar esse discurso nos fazendo parecer umas velhas amarguradas como as bruxas dos contos de fadas.
eles constroem uma imagem bonita de autocuidado, autoestima e saúde enquanto nos aprisionam em versões domesticadas que não podem sair de casa sem trinta processos de skincare, um lifting, uma cinta modeladora e um blush para dar um ar saudável.
eu só desejo do fundo da minha alma que você desperte para o fato de que ser saudável é ter ossos fortes, músculos que sustentam seu corpo, gordura para regular seus hormônios, orgãos funcionando, cabelos saudáveis, unhas resistentes, menstruação regulada e disposição para viver, criar e raciocinar.
a Ariana Grande está doente e vai dizer que não. eu também dizia que estava ótima enquanto forçava o vômito depois de um rodízio de pizza. nossa sociedade está doente e vai tentar te convencer de que é autocuidado.
escolha enxergar a realidade como ela é porque só assim é possível criar caminhos de libertação. não vai depender de mim mudar a realidade, mas eu desejo que esse texto chegue em quem precisa e plante uma sementinha de vida dentro de cada uma.
não é simples nos mantermos atentas, fortes e desejantes. os obstáculos são muitos e são sedutores. mas quando a gente se tem, a gente dá conta.
curadoria da semana
🎧essa e qualquer entrevista com a Jameela Jamil. a visão que ela traz sobre o feminismo aluga um triplex na nossa consciência por dias. infelizmente, eu não consegui encontrar uma versão com legenda em português pra essa entrevista específica, mas existem cortes traduzidos nas redes sociais
🎬Spencer, o filme de Pablo Larraín e protagonizado pela Kristen Stewart retrata alguns dias da vida da Princesa Diana e essa sensação de viver sob as rédeas alheias é bem presente. lindo e bem intimista!
📚Café com a Deusa Mãe: tô amando essa série de textos da Cândida Schaedler





Nossa, Yna, ontem à noite, antes de dormir, eu estava assistindo vídeos no Insta e deparei com duas famosas brasileiras agora SUPER magras. Ossos à mostra, pernas finíssimas, e meu primeiro pensamento foi: “também quero”.
Na hora eu me dei conta e me corrigi, mas quando você passa a vida inteira ouvindo que ser magra é bonito - e também já passou por agência de modelo - aceitar as coxas e a própria barriga de mulher de 30 anos é um trabalho que nunca termina. Empatizo muito com seu relato. Muito mesmo. E sinto demais por ele :( uma geração inteirinha ainda sente essas consequências.
E não só a magreza é estratégia de dominação, como todos os padrões de beleza. Fico refletindo muito sobre isso. Antes, estava na moda a Kim Kardashian cheia de curvas. É enlouquecedor porque nunca estamos lá.
Obrigada por este texto, obrigada mesmo! Nós precisamos falar sobre isso.
(E que alegria ter o Café com Deusa Mãe indicado ao final. Teremos em breve um com Afrodite e isso é MUITO uma pauta pra ela 🤣)
Irretocável.