é possível sorrir em meio ao luto
impossível exigir linearidade de um rio
quando tudo já está feito e a única coisa que temos é a espera, abre-se um espaço enorme para sentir.
olho para o calendário e tudo o que tinha para ser feito hoje está feito, tudo o que tem para amanhã, programado. as coisas que estão ao meu alcance seguem sendo produzidas, mas existe um espaço entre o que faço e a decisão de quem recebe o que faço.
mandamos avisos, sinais de fumaça em formato de conteúdos bonitos o bastante para me deixarem orgulhosa do meu senso estético, mas eles repousam lentamente em quem os vê. não acertam como flecha certeira provocando uma dor tão lancinante que obriga quem lê a tomar uma atitude imediata, antes que declare o seu fim.
enviados com delicadeza, são recebidos por quem precisa de tempo e espaço para sentir se o que faço é realmente o que desejam. eu prefiro que seja assim, com calma. mas enquanto espero, atravesso os mais diferentes pensamentos:
tá tudo muito lindo, óbvio que vai dar certo! vai dar tudo errado e ninguém virá! não tem como ninguém aparecer quando tudo é feito com tanto cuidado, mas se ninguém vier melhor calcular o risco para o prejuízo não ser catastrófico… que catástrofe? nenhuma! você é doida, deveria ter feito arquitetura igual sua mãe disse… não. NÃO! eu sei o que estou fazendo, vai dar tudo certo…
essa é uma mensagem especial para quem depende que alguém compre o que você vende para fazer dinheiro e conquistar, algum dia, o reconhecimento.
esperar a decisão alheia realmente testa se nossa terapia está em dia
sim, é normal receber milhares de nãos e dezenas de sims
não é gostoso conviver com a possibilidade de sair no prejuízo
é normal você se achar péssima no que faz enquanto espera e ótima quando bate suas metas
absolutamente todas as pessoas que vendem atravessam essa angústia (a não ser, óbvio, as que já estão consolidadas no mercado e sabem que conseguem vender facilmente até a água do próprio banho)
me disseram que se eu contasse isso abertamente, perderia a minha autoridade. que mentir e fingir um autocontrole absoluto era a maneira mais eficaz de atrair as pessoas. que as pessoas gostam de quem é invencível e de quem não titubeia. porque as pessoas não se sentem seguras com quem está próximo a elas, é preciso estar à frente ou no pedestal.
mas que pessoas, eu te pergunto?
porque as minhas pessoas não são assim.
eu não sou assim.
eu gosto de gente que sente e me conta em detalhes o que atravessa. gosto de gente caótica que se coloca no caminho do que deseja e vive diariamente os efeitos colaterais disso. gosto de assistir os deleites de quem me conta como atravessou os desafios. gosto de gente que escolhe habitar a realidade e dividir como faz para que ela fique ainda mais bonita e fértil do que a fantasia.
recentemente, tomei uma decisão importante que está mexendo muito comigo. tenho chorado bastante e degustado o sabor agridoce que toda escolha tem. na minha cabeça, Chorão canta: “cada escolha, uma renúncia, isso é a vida! estou lutando pra me recompor” e dá força pra essa parceira de signo que ele nunca soube da existência.
enquanto enxugo as lágrimas que anunciam o fim, passo o batom vermelho e sorrio enquanto convido mulheres para viverem a Residência Criativa na Chapada dos Veadeiros. e sorrio de verdade porque existe uma alegria sem tamanho em ver meu projeto de vida crescer. a Desejante me faz feliz todos os dias e é também por ela que fiz essa escolha difícil.
olho para a Ynara de 2015 que passou em um teste e foi para Buenos Aires com a promessa de que faria parte da companhia Fuerza Bruta. dois dias depois, ela tomou um não que a acertou como um soco no estômago. e eu lembro que a maior dor veio de ver desmoronar o sonho de trabalhar viajando o mundo…
daqui de 2026, me vejo realizando esse sonho aos poucos. Amazônia, Carneiros, Floripa, São Paulo e, agora, a Chapada. além de conversas trocadas para uma possível eurotour daqui alguns anos… imagina? vou me sentir uma diva pop quando anunciar — e também vou sentir toda uma leva de sentimentos assustadores junto.
é possível sorrir em meio ao luto, sentir esperança em meio à insegurança, amar e não querer mais estar junto, ser otimista e pensar em possibilidades catastróficas.
e não é porque um pensamento ruim te atravessou que você vai atrair o fracasso. pelo amor de deus, nós somos adultas o bastante pra não acreditar nesse papinho que produz mais ansiedade do que ajuda a aliviá-la.
eu e você carregamos uma complexidade infinita e tentar linearizá-la é como retificar as curvas de um rio e impedir o fluxo natural das nossas águas. eu, particularmente, considero isso um crime.
prefiro habitar a inconstância e seguir aprendendo a lidar comigo quando tudo parece perder a margem ou quando me dou conta de que não controlo absolutamente nada nessa vida.
faço minhas escolhas, banco os efeitos colaterais e pago a minha analista para segurar essa barra comigo. mas não só: divido dores e delícias com as amigas, choro nos ombros do Lucas que me faz rir com uma piada besta em seguida, sento na varanda e respiro o vento outonal que agita a maré, tomo um sorvete artesanal de doce de leite e pistache e compro meu lugar numa viagem em Dezembro.
escolher viver nossos desejos, minhas caras, é essa bagunça toda mesmo. mas se quer saber se eu quero outra vida? não, não…
eu sei que algumas decisões não são simples de serem tomadas. mas eu posso fazer o que está ao meu alcance para te ajudar. eu e minha sócia decidimos liberar até dia 15/05 a possibilidade de você parcelar a Residência Criativa em até 10x sem juros. uma forma de tornar o agora possível, já que as vagas são limitadas e já temos viajantes a bordo (para o alívio nos nossos corações). para garantir a sua, é só preencher o formulário que entramos em contato.
curadoria da semana
🎧eu amo as músicas da Laufey e essa está na playlist das minhas vivências
🎬assistimos A Vida de Chuck, e meu deus, que filme lindo! ótimo pra quando você estiver afim de voltar a se encantar com a vida.
📚eu terminei de ler Um Hino À Vida, a história de Gisèle Pelicot. apesar de toda dor que ele revela e raiva que ele provoca, Gisèle é uma mulher grandiosa que escolhe habitar a vida e acreditar no amor mesmo com todo o horror que viveu. eu estou fascinada!






quando você desobedece essa performance de "autoridade", atrai mulheres adultas o bastante para saber que estamos todas correndo atrás dos nossos B.Os, que é fantasiosa a ideia de alguém que não titubeia. mas saber que é possível titubear, expor essa sensação (apesar das contraindicações), e ainda seguir com seus projetos, é o mais impactante. chegam a você mulheres que querem comunidade, ao invés de hierarquia. dito isso, sorvete de doce de leite com pistache cura até defunto hahaha <3
Obrigada por compartilhar, é lendo textos assim que percebemos que "todas as experiências são iguais, só muda o endereço". Mas eu queria agradecer em especial por este trecho "...e não é porque um pensamento ruim te atravessou que você vai atrair o fracasso. pelo amor de deus, nós somos adultas o bastante pra não acreditar nesse papinho que produz mais ansiedade do que ajuda a aliviá-la..." Em 2019 eu bati meu carro ao trocar de faixa e ser atingida por um táxi... Estávamos ambos meio rápido então foi um bom prejuízo pra mim. Se eu tivesse seguro, tinha sido PT. E eu sabia que era corresponsável pois (além de não ter seguro) a escolha de não olhar uma segunda vez para o retrovisor fora minha. Aí diante do prejuízo depois de mandar consertar, sem saber se teria direito como pagar, eu "caí na esparrela" (como dizia minha vó) de comentar isso com um amigo, eu estava trabalhando no salão de beleza dele aos finais de semana para fazer uma renda extra. E para minha surpresa ele disse que eu estava reclamando e que talvez com isso eu estava "manifestando um sentimento de que não era merecedora do meu carro". Depois de ler um outro texto sobre como as redes sociais nos obrigam a estarmos sempre ativos, postando para não perdermos para o algoritmo, e como falarmos para as pessoas nossos problemas pode passar a impressão de sermos reclamões.
Claro, ninguém gosta de gente mal humorada o tempo todo. Mas a vida é cheia de altos e baixos, vamos ter dúvidas e medos, e não poder compartilhar isso para trocar informações é angustiante. Não estamos isolados, somos uma sociedade coletiva.