é burrice continuar acreditando nos homens?
um treinamento para garotos, Café Com Teu Pai, uma música francesa e a esperança
acabei de ver o seguinte vídeo: dois professores (um homem e uma mulher) numa sala com apenas meninos de no máximo 7 anos ensinando na prática o que significa a palavra “não”. no primeiro exemplo, o professor pede um abraço para a professora que nega, mas acaba cedendo minutos depois por conta da insistência. em seguida, o professor pergunta aos alunos se aquela atitude foi de alguém que realmente queria o abraço ou não. os alunos respondem corretamente e o professor reforça que o “sim” é imediato e não apenas dito, mas expressado com o corpo.
fiquei pensando em quão bem estruturada está a cultura da invasão aos corpos femininos para ser necessário um treinamento (!!!) para que garotos entendam desde cedo que precisam respeitar um não.
me lembrei do clipe de Balance Ton Quoi da cantora francesa Angèle onde ela simula uma escola anti-sexismo e em uma das cenas, o personagem do ator Pierre Niney pergunta:
— eu quero só voltar em um ponto que não ficou muito claro. quando uma mulher diz ‘não’, eu tenho a impressão que, mesmo assim, muitas vezes isso pode significar…
— que não.
— não? ah, tá bem. não é tão simples, né? tem que pegar o jeito…
essa semana o perfil de instagram do Café Com Teu Pai caiu. no tiktok, segue ativo e lá está ele bradando sobre ter sido censurado por falar mal do presidente. seria hilário se não fosse uma estratégia nojenta.
Breno diz coisas como: “o homem só vai ser fiel a você se ele achar que você merece” e regras pavorosas de domesticação feminina que muitas, infelizmente, caem e seguem porque realmente acreditam que ele está dizendo a verdade. ou porque lhes falta coragem de estourar a bolha onde vivem, sustentar o desconforto de enxergar o mundo como ele verdadeiramente é e perceber que não existe privilégio algum em ser escolhida por quem te menospreza.
homens ensinando mulheres a se domesticarem para merecer um relacionamento com esses mesmo homens que irão silenciá-las e dominá-las durante os anos que passarem juntos. a conta não fecha.
em contrapartida, esses dias ouvi o podcast da Iana Villela com a Mirelle Mathias onde elas conversavam sobre a participação dos homens na luta feminina. Iana defendeu que é necessário que os homens participem e que é possível, sim, que existam bons homens. Mirelle discordou. e eu? estou com Iana.
tenho três sobrinhos, Theo, Dante e Athos. os três são amorosos, gentis, agradáveis, inteligentes e divertidos. eu me recuso a acreditar que eles estão condenados a serem homens horríveis. assim como ao meu lado está Lucas, um homem de quase 40 anos que está longe de ser uma pessoa perfeita como todos os seres humanos, mas que nunca, em hipótese alguma, me faltou com respeito. mesmo nos momentos mais delicados que vivemos.
eu sei o quão cruéis os homens podem ser, acredite. já passei por poucas e boas e ainda vejo frequentemente muitos que eu acreditava que eram bons, despencarem para o nível mais desprezível do que é ser humano. ainda assim, jamais deixarei de acreditar que pessoas boas habitam esse planeta e que bons homens também estão aqui.
jamais deixarei de acreditar, também, no trabalho bonito e cuidadoso que muitas mães estão fazendo para criar bons meninos. como Iana, que é mãe de Caetano; como Angela e Lila, minhas cunhadas; como Janayna, minha irmã; como Orjana, minha mentorada; como Lilla, minha amiga e como todas vocês que me leem e se veem no que digo.
ao mesmo tempo, sei que não depende só delas. talvez o Breno tenha uma mãe maravilhosa que tentou de tudo para que seu filho não fosse um exemplo de discurso misógino. talvez, quem tenha forjado Breno seja nossa sociedade. e por isso mesmo, se deixarmos de acreditar que é possível emergir novos discursos e novas formas de atuarmos no mundo, de que vale tudo isso?
se precisamos de bons professores dando aulas e treinamentos explicando o óbvio didaticamente, que seja! se precisamos nos unir para derrubar um mísero perfil de rede social para dar um recado, que seja! se precisamos escrever newsletters na esperança de fazer alguma mínima diferença, que seja! que seja feito o que estiver ao nosso alcance.
eu escolhi trabalhar por e para mulheres e me dedicar a guia-las por um caminho de autonomia, coragem e prazer porque sei a diferença que faz quando lideramos nossas vidas, escolhas, corpos, relações e territórios.
mas esse trabalho não é apenas nosso. que seja feito o que estiver ao alcance dos que detém a fama de sustentar toda essa barbárie. porque eu me recuso a acreditar que vocês não se incomodam em saber que nós preferimos dar de cara com um urso selvagem ou com o próprio demônio, se ele existir, do que com um homem quando estamos sozinhas.
a todos que me leem: vocês precisam escolher o desconforto de arriscar seus privilégios se realmente desejam viver em um mundo menos violento. e vocês precisam de muito mais coragem para amar de verdade as mulheres e lutar por sua liberdade.
“a verdade é que, pra amar uma mulher, é preciso desobedecer. e isso também vale pra os homens. pra que um homem ame verdadeiramente uma mulher, é preciso que ele desobedeça as lições do machismo e da misoginia que anestesiam e sufocam seu órgão de amar.”
mulher feliz, realizada e desejante é a nossa pequena-grande revolução
menina, e se a gente fosse juntas pra Chapada dos Veadeiros e por 5 dias eu e minha equipe cuidássemos de absolutamente tudo pra que você simplesmente relaxasse e desfrutasse de uma boa pausa?
de 29/07 a 02/08 a Residência Criativa chega à Chapada com práticas de conexão corpórea, rodas de partilha, comida deliciosa feita por nossa chef (e minha mãe), práticas criativas, passeios e pausas.
vamos te pegar no aeroporto e a partir do momento que você estiver com a gente, não precisará se preocupar com mais nada: hospedagem, refeições, transporte, guia, ingressos… nós cuidamos de tudo.
as inscrições estão abertas e temos apenas 11 vagas. você pode conferir todos os detalhes no nosso site e nos chamar por whatsapp para tirar suas dúvidas e finalizar a inscrição.
curadoria da semana
🎧o novo álbum da Anitta, né? ela não precisa de divulgação, mas assim, o que ela está fazendo aqui é histórico, forte e revolucionário
🎬semana passada dei uma aula gratuita que já deveria ter saído do ar, mas devido à repercussão, eu decidi deixar aberta por mais um tempinho
📚a beleza da vida comum brilhantemente escrita pela Clara Esteves



