eu tinha 12 anos quando menstruei pela primeira vez. mais ou menos um ano antes, meu corpo começou a mudar de forma e tanto eu quanto os adultos a minha volta começamos a perceber alguns elementos que antes eram invisíveis. mamilos e pelos foram os primeiros. de repente, tinham que ser respectivamente escondidos e retirados.
mas nada me incomodou mais do que ela.
minha prima era minha maior inspiração nessa época. ela era 5 anos mais velha e eu a achava linda, engraçada, divertida… e ela não tinha.
minha melhor amiga da época foi o meu primeiro amor não-romântico (considero, inclusive, nosso término como um dos piores que já vivi. talvez o pior). ela era linda, interessante, divertida… e também não tinha.
minha mãe sempre foi minha referência de mulher. e não tinha.
as atrizes, cantoras e modelos que eu me inspirava também não tinham.
mas em mim, logo abaixo do umbigo, ela resolveu morar pra sempre.
A BARRIGA
desde que ela apareceu, eu nunca mais tive paz. principalmente porque vivíamos nos anos 00 onde a calça jeans de cintura baixa e cós minúsculo era a última moda e todas as lojas só vendiam isso.
era horrível comprar roupa sendo uma garota de quadril 90cm desde meus 14 anos. toda vez, um sofrimento. tão diferente de quando era criança e meu corpo era simplesmente minha forma de existir no mundo…
mas voltemos a ela, a barriga.
uma pequena protuberância abaixo do umbigo que tirava todo o charme daquela faixa de barriga que a gente costumava deixar entre a calça e a blusinha. além disso, ir à praia ou a piscina era um tormento. sentar para comer ou tomar sol significava que ela iria dobrar e me deixar horrorosa.
por isso, eu sempre colocava uma canga, uma toalha ou qualquer outra coisa para cobri-la e jamais saía para caminhar apenas de biquini. alguma coisa precisava esconder tamanha vergonha.
eu adoraria te dizer que isso ficou no passado, mas a realidade brutal é que desde os 12 anos o meu sonho é ter uma barriga reta.
TEMPO PERDIDO
faz poucos anos que eu decidi viver apesar desse sonho. parar de cobri-la quando sento, caminhar livremente de biquini pela praia, tirar e postar fotos ou vídeos onde ela apareça. posso te garantir: é imensamente desconfortável.
um dia eu estava na praia e vi uma adolescente se cobrir inteira para caminhar embaixo de um sol quente escondendo seu corpo acima do peso. eu vi nos seus olhos a vergonha que sentia de si mesma e a minha vontade foi de ir lá e dizer: “pelo amor de deus, não faça isso com você! você tem um corpo saudável que te permite sentir todas as coisas a sua volta! e daí que ele não está dentro do padrão? quem foi que inventou esse padrão? com certeza alguém que não quer nos ver livres e felizes. vai viver, menina! por favor!”
mas que moral eu tinha? eu que ainda escondia a gordura acumulada abaixo do umbigo como se fosse imoral que ela existisse. eu que me sentia insegura mesmo sendo muito mais dentro do tal do padrão do que aquela garota. como eu poderia aconselhar alguém?
estamos todas no mesmo balaio… e aos poucos, precisamos sair dele juntas.
O ÚTERO
há uns anos, vi no perfil da Mariana Goldfarb uma imagem linda dela no Vale da Lua dentro de um buraco que chama de útero. quando definimos a viagem da Chapada dos Veadeiros, eu já fiquei empolgada para tirar a minha.
caminhamos embaixo de um sol quente num solo escorregadio e chegamos ao lugar. mas para tirar a fatídica foto, é preciso descer num buraco que não tem a menor estrutura para ser descido. você precisa ativar o homem-aranha que te habita e ir com deus!
a vontade de ter a danada da foto era tanta que descemos, uma atrás da outra. uma raladinha aqui, outra ali, mas chegamos.
todas as mulheres que estavam comigo tinham a mesma preocupação.
— espera, deixa eu esconder minha barriga!
— mulher, pelo amor de deus! barrigas dobram! você está linda! a foto está linda! a barriga é o de menos!
ora, ora, ora… mas quem foi que disse isso?
quando me ouvi, percebi que estava me sentindo tão feliz naquele lugar que apesar da barriga ter surgido nos meus pensamentos, eu jamais deixaria de tirar a foto que eu queria por causa dela.
e eu acho que essa foi a primeira vez em mais de 20 anos que eu me senti realmente livre nesse sentido.
desde que aprendi com outras mulheres sobre o tanto de tempo e espaço que doamos sem perceber para tentar fazer parte do que é considerado bonito, respeitável, digno e que nunca vamos alcançar a linha de chegada porque ela simplesmente não existe, tenho me libertado pouco a pouco. e quando percebo que mais um nó desatou, me sinto profundamente realizada.
aos 12 anos, meus pelos foram considerados nojentos e sinal de desleixo. não por meus pais, preciso deixar isso bem colocado aqui. mas por muitos dos adultos a minha volta. assim como meus mamilos levemente aparentes precisaram ser urgentemente escondidos embaixo de sutiãs porque senão “os meninos não iriam saber lidar” — palavras da diretora da escola.
não quero chover no molhado aqui. você, mulher que me lê, também passou por isso. mas eu preciso que você se lembre que esse desconforto em habitar o próprio corpo não nasceu com você. ele foi, aos poucos, muito bem introduzido no seu inconsciente e não é da noite para o dia que as coisas vão mudar.
você não vai amar seu corpo porque o feminismo diz que você deve.
aliás, você nem é obrigada a achar tudo lindo. se por um acaso sentir que será mais feliz com outro nariz, quilos mais magra ou mais gorda… faça o que deseja. desde que seja o seu desejo. e é aqui que as coisas se confundem e precisam da sua atenção.
confesso que quando o assunto é estética, não sei se estamos completamente isentas dos padrões sociais para tomar essa decisão. mas se estivermos lúcidas sobre isso, a escolha é, pelo menos, consciente.
mas, sinceramente? eu desejo que o seu tempo de vida não seja gasto pensando em tudo o que você deveria consertar em você para, aí sim, começar a viver livremente. eu espero que seu tempo de vida seja gasto vivendo o que te dá prazer! eu espero que você pare de se esconder da vida por se achar inadequada para vivê-la por inteiro.
sei lá, parece que a gente está sempre com a sensação de chegar numa festa e ser a única fantasiada, sabe? tipo a Cathy no Halloween em Meninas Malvadas:
mas é a nossa vida, nossa festa e quem define o dresscode somos nós.
pode levar o tempo que for, mas eu desejo que você se sinta livre. pelo menos por alguns segundos. depois por alguns minutos. depois por alguns dias. depois por alguns meses. e, então, pelo resto da vida.
algumas barrigas dobram.
todos os corpos sentem.
curadoria da semana
🎧"fora o que é feio, fora o que dá pena | eu vou te dar uns pontos para você caber no show de fantoches” diz a letra de Puppet Show da Mollie Elizabeth
🎬A Meia-Irmã Feia leva ao extremo esse assunto. é nojento e beira o ridículo, mas eu achei um retrato bem realista da nossa psique
📚esse texto da Rafaela Venturim sobre o tema está impecável
❤️🔥estar entre mulheres, aprender, ouvir e criar junto delas é o que nos enche de lucidez e coragem para enfrentar o que for: estamos nas últimas 3 vagas para a Residência Criativa da Praia dos Carneiros. tenho muito orgulho de sustentar um espaço onde você pode se nutrir das energias que precisa para seguir DESEJANTE pela vida. te quero comigo vivendo essa experiência gostosa na beira do mar e junto de outras almas criativas, curiosas e inquietas como a gente. bora? clique aqui para conhecer todos os detalhes e conversar comigo sobre a sua vaga.






